A IMPORTÂNCIA (OU NÃO) DA CRONOANÁLISE.

Com a crise que ameaça a sobrevivência da indústria calçadista, muitos empresários que não se preocupavam nunca com a racionalização das operações e conseqüente baixa dos custos, de repente, em desespero de causa começam a procurar remédios milagrosos.

Não sei de onde surgiu a idéia que, para racionalizar o trabalho dos pespontos, a cronoanálise é uma providência infalível para aumentar o rendimento de trabalho. Será que é mesmo? A experiência prova o contrário. A cronoanálise é indispensável na metalurgia. Uma fábrica de peças para automóveis, por exemplo, é impensável, se não tivesse um departamento dedicado a esta matéria.

Mas a indústria de calçados? Quem já teve oportunidade de assistir a um curso de cronoanálise e de tempos e movimentos sabe, que a melhor maneira de embaraçar o instrutor é, pedir a ele explicação de como aplicar esta técnica na indústria de calçados. A resposta, se obtiver alguma, não terá nenhuma utilidade prática.

Em Franca, numa grande indústria tinha um departamento de cronoanálise com seis funcionários. Quando este departamento foi fechado por motivo de contenção de despesas, descobriu-se, que não fez falta alguma. O que não deixa de ter a sua lógica. A cronoanálise praticada pelo método clássico exige uma grande quantidade de medição e de interpretação dos dados colhidos. A grande variedade de modelos em produção numa indústria calçadista é causa de pouco aproveitamento da cronoanálise. Quando, finalmente, a cronoanálise fica pronta o modelo já saiu de produção e começa tudo de novo sem ter sido tirado proveito do primeiro trabalho.

Quando faço a medição do tempo numa máquina metalúrgica, um torno, uma fresa horizontal, uma furadeira radial etc.. não estou cronometrando o operador mas o tempo da máquina. Este é o que importa. Os trabalhos preparatórios são analisados fora do contexto.

Na indústria de calçados, principalmente na seção de pesponto, podemos ter até vinte ou trinta operações de costura. Cada uma feita numa máquina e por uma operária diferente. Existem tabelas teóricas que avaliam o grau de fadiga, grau da experiência da operária etc.. Mas isso não passa da teoria com pouca probabilidade de ser aplicada com sucesso na prática.

Por exemplo: será que o tempo tomado de uma operação no frescor da manhã, com a costureira descansada, terá o mesmo valor que o tempo tomado ás 4 horas da tarde calorenta, com operária após 8 horas de trabalho cansativo? Qual então, é o valor do tempo que vou usar para estabelecer a produtividade? E como vou aplicar este valor para cobrar produção de uma costureira com três meses de prática, se o tempo tomado foi o de uma costureira com 15 anos de prática?

Dá para ver, como a teoria está afastada da prática do dia a dia do trabalho. Não quero desmerecer o esforço honesto dos cronometristas, convencidos da importância do trabalho deles. Quero chamar a atenção dos empresários, que acham que a cronoanálise suprirá todas as demais falhas organizacionais dos pespontos.

Organizar um pesponto produtivo e eficiente é simples repito, é simples desde que sejam observadas outras condições para um funcionamento suave e eficiente. É impressionante observar a inibição, outrossim de empresários cheios de pose e bem falantes, como se calam, quando se começa discutir algum assunto relativo ao pesponto? Será que é algum machismo enrustido? A costura é negócio de mulher?

Visitem fábricas de calçados nos países muçulmanos para ver, que pesponto é negócio só de homens, sim senhor! Mas ao contrário, um dirigente que quer provar a capacidade de organização e liderança, não pode ter melhor campo de ação que o pesponto, que é fácil de organizar e gerenciar, desde que é comprendida a filosofia básica da produção deste ambiente.

A cronoanálise é um luxo dispendioso e desnecessário para ter um pesponto produtivo. Por outro lado, um cronômetro é uma ferramenta indispensável para nos dizer qual é a capacidade de produção e quantos minutos disponíveis temos para cada modelo específico dentro do pesponto e, assim, programar a produção. Cronometragem de orientação é bem mais simples e rápida.

Novamente o mandamento da filosofia religiosa Zen prevalece : Simplifique, meu filho! Simplifique.

Zdenek Pracuch