2012. E AGORA ?
Já chegamos. 2012 está aí com todas as incertezas e dúvidas, tanto no âmbito global como nacional. Contrastando com o otimismo oficial do governo, as estatísticas e gráficos, todos estão apontando quedas, crescimento zero etc. e um temor generalizado que a crise que assola Europa e Estados Unidos pode afetar o crescimento e a economia chinesa e, por tabela, o Brasil também.
Quanto ao segmento da indústria de calçados, os números são preocupantes. Talvez, nunca na história recente se viu um segundo semestre tão fraco e decepcionante como este que passou. “São grandes os riscos para a nossa indústria” aponta Milton Cardoso, presidente da Abicalçados. Baseia a sua preocupação nas estatísticas de emprego do mês de Outubro. Quando em 2010 havia contratação positiva de criação de 1.993 empregos, em 2011 houve saldo negativo de 1.431!
O saldo da balança comercial do setor ficou negativo em 29,1 % nos primeiros dez meses do ano. Houve aumento de 44,5 % no valor das importações e redução de 13,6 % no valor das exportações. O volume embarcado caiu nos primeiros dez meses 24 %.
Pelos dados do IBGE houve uma queda de 10,7 % na produção de calçados no período de janeiro a setembro em comparação com mesmo período do ano passado. Somente no mês de setembro a queda foi de 13,1 % em comparação ao mesmo mês do ano passado. Nas palavras de Milton Cardoso que avalia serem dez meses consecutivos de queda na produção industrial “o que é um sinal antecedente importante quanto ao futuro do emprego”.
Por coincidência, no dia 16 de dezembro a Vulcabrás, cujo presidente é o mesmo Milton Cardoso anunciou o fechamento de seis fábricas na Bahia. Embora se trate de unidades pequenas que funcionavam igual aos pespontos terceirizados, bancadas em Franca, este gesto é sintomático. Em abril a Vulcabrás comprou uma fábrica na Índia, justificando a aquisição como única saída para baixar os custos de produção, em até 70 % em comparação com os custos no Brasil.
Esta deveria ser a principal preocupação dos empresários calçadistas brasileiros. Custos e métodos de produção. Este é o calcanhar de Aquiles da indústria brasileira de calçados na sua preponderante maioria. Nosso pessoal ainda não percebeu a mudança profunda que está acontecendo no âmbito global com o nosso setor industrial. – Se não houver uma mudança na mentalidade, o setor está condenado. Novas tecnologias, novas técnicas de gestão e novos métodos de produção têm que ser introduzidos, sob pena de fechamento do setor, como já ocorreu na Europa e nos Estados Unidos. Esta é a imposição do momento. E este é um desafio maior – mudar a mentalidade reinante.
Acompanhei recentemente um episodio característico em Nova Serrana. Convidei um empresário a visitar a fábrica, que chamo “do terceiro milênio” onde produzimos calçado em questão de hora e meia e não de dias ou até semanas, como frequentemente ocorre. Visitou, ficou impressionado e na hora encomendou uma esteira de fita para o pesponto. Quando a esteira chegou o chefe de produção se rebelou: “Isto nunca vai funcionar! Não trabalho com isso! Ou esteira ou eu!” Ao que ouviu do dono da empresa: “Lamento por Você. A esteira vai ficar e Você vai!” E o gerente voltou. Para onde? Para Franca.
Só para completar. No primeiro dia de funcionamento, com todo nervosismo da novidade a produção foi exatamente o dobro dos dias anteriores, quando o serviço andava em caixotes de operação em operação.
Mas esta teimosia não é privilégio brasileiro. Quando chefiava o setor de calçados numa trading sueca, recebi queixa da falta de qualidade numa fábrica que produzia para nos na ex-Tchecoslováquia. Fui verificar e sem ter sido apresentado à chefe do pesponto e conversando em tcheco, a coitada não fazia idéia com quem falava, veio com quatro pedras na mão: “Apareceu aqui uma vaca (sic) austríaca (nossa inspetora de qualidade) e achou um milhão de defeitos nos cabedais! Imagine! Tenho trinta anos de profissão e ninguém vai me ensinar nada!” – Simplesmente cancelei o contrato de fornecimento. Não havia nada a ensinar para quem sabe tudo.
Temos problemas sérios para vencer. A problemática de mão-de-obra desqualificada é um deles, mas este começa nos bancos escolares. A produtividade do operário brasileiro é muito baixa. Mas o custo de mão-de-obra (e nisso temos que incluir todos os recolhimentos e legislação que pesam sobre ela) pressiona os custos das empresas para o alto, enquanto a produtividade da economia tende para baixo. Hoje os empregados qualificados são tão ou mais importantes do que o capital ou tecnologia. Quem pode dar aulas sobre o assunto para nos é, por exemplo, a Coréia ou Singapura.
A organização pró-negócios Conference Board estima que a produtividade em 2011 no Brasil crescerá em 2,4 % enquanto a da China crescerá em 7,9 %. Não será fácil entrar em competição direta, com algarismos alertando para esta realidade.
Há muito a ser feito para manter pelo menos o status quo sem sonhar com o crescimento. Nas próximas colunas farei sugestões de como se adaptar aos novos tempos e às situações criadas com as mudanças no cenário global e nacional, a partir da pesquisa de mercados até o atendimento pós-venda, coitado, ainda tão desconhecido e pouco aplicado!
Zdenek Pracuch
02/01/12