20 ANOS? HÁ TEMPO PARA AGIR

Há algumas semanas uma manchete do Comércio (2.12.2007) levantou comentários na comunidade calçadista de Franca mas não só no meio daqueles que estão diretamente ligados à esta indústria. Dizia a manchete: “Indústria de calçados pode sumir em 20 anos.” Será? Como em quase tudo, há pelo menos duas opiniões diferentes. Uns acham que se trata de puro catastrofismo, enquanto outros já enxergam sinais mostrando que o fim preconizado já começou.

Com quem está a razão? Como geralmente acontece a razão está situada nalgum ponto do meio.

Para entender o que, de fato, está acontecendo temos que fazer uma análise fria e objetiva, deixando do lado um otimismo sem fundamento ou um pessimismo exagerado. Estes dois misturados com vaidades feridas ou a falta de observação analítica, daquilo o que acontece além das fronteiras do município, o que dizer, então, do que ocorre no âmbito global.

Temos vários exemplos daquilo o que ameaça de acontecer, tanto dentro, como fora do Brasil. Onde está, a outrora, florescente indústria de calçados de Salvador (no início do século passado), do Rio de Janeiro, de São Paulo e, até, de Belo Horizonte?

Onde está, a outrora florescente, indústria de calçados da Suécia, Holanda, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, e até de Portugal e Espanha e Itália? Ou da Coréia do Sul e Taiwan, para ficarmos no âmbito global? Sem dúvida, sobreviveram algumas fábricas nestes países, mas no contexto da produção que antigamente ostentavam, hoje não representam praticamente nada.

Em compensação surgiram novos competidores, de respeito, que estão invadindo espaços antes cativos das nações acima citadas. Os novatos, que devem ser tratados com todo respeito são em primeiro lugar a China, com Índia em segundo, seguidos de Vietnam, Indonésia, Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka, praticamente nesta ordem de números e importância.

Como chegamos a esta situação e o que poderá ser feito contra a profecia sinistra de “20 anos”?

Sob ponto de vista global é até fácil fazer o diagnóstico. Por se tratar de uma indústria de mão-de-obra intensiva é lógico que a indústria migra em busca de mão-de-obra barata e abundante. Os países asiáticos ainda levam a vantagem de oferecer um operariado especialmente produtivo e disciplinado. Se a indústria ainda conta com apoio explícito do governo, com programas educacionais e subsídios, como o é o caso da Índia, a tarefa de competir em termos comerciais, como é o nosso caso, torna-se quase impossível.

Os casos da Coréia do Sul e de Taiwan são sintomáticos. A evolução tecnológica atingiu um grau, onde a mão-de-obra intensiva solicitada se tornou tão cara, que simplesmente fez a indústria de calçados desaparecer ou emigrar (para a China!).

No caso brasileiro temos situações sui-generis: sobra a mão-de-obra pouco qualificada, mas que não pode sobreviver com o salário mínimo legal, o que a torna proibitiva para a indústria de calçados se esta quiser manter a rentabilidade necessária e, falta mão-de-obra qualificada nas áreas de metalurgia, informática, biologia etc..

Duas situações contribuem para o futuro nebuloso da indústria de calçados, não só em Franca mas no Brasil:

PRIMEIRA: A parte que cabe ao Governo: taxação excessiva (China taxa o calçado em 16 % acumulados. No Brasil a taxação é de 39,6 % acumulados) e falta um programa efetivo de defesa e de incentivo, principalmente na área de formação de quadros técnicos. Esperar que meia-dúzia de cursos do SENAI vai suprir esta deficiência é sonhar com olhos abertos. Foi anunciada este mês a criação de 512 escolas técnicas, mas não foi especificado para quais setores. E mesmo se for criada escola técnica para futuros técnicos de calçados, onde vão buscar o corpo docente? Fazer como o SENAI faz, contratar instrutores na própria indústria? Para ensinar técnicas ultrapassadas e métodos de trabalho atuais, que já são obsoletos hoje? Os instrutores não tem culpa, porque nunca tiveram oportunidade de se atualizar ou conhecer situações diferentes.

Indianos têm outra visão do problema. Nos próximos três anos a Índia vai formar 21.000 técnicos calçadistas saídos das escolas fundamentais originadas na tradição inglesa do ensino. Vai formar idem 3.000 empresários nas técnicas de gestão das mais atualizadas. Vamos competir como?

SEGUNDA: Sem olhar para caras feias de vaidades feridas, agora está sendo apresentada ao nosso empresariado a fatura pela gestão nos anos de abundância, mas que eram também anos de desperdícios, falta de racionalização dos métodos de trabalho, dos métodos de venda e de acomodação geral. Onde está o empresário e a fábrica dele, que declarou com bazófia: “O gringo tem que vir aqui! O calçado está aqui e tem que busca-lo na nossa mão!” – Felizmente, há honrosas exceções, mas são tão poucas que não conseguem, até agora, reverter a tendência do declínio.

Nunca antes a opinião do “rei dos calçados” Thomas Bata Jr. foi tão atual como agora: “Nossa indústria é uma indústria pobre. Ela é feita de milímetros, gramas e segundos e, aí de quem desprezar isso!”

Além das economias em todos os sentidos, a originalidade, a criatividade o uso de materiais naturais brasileiros, couros em primeiro lugar, terão que ser adotados e praticados, aliados a uma forte agressividade e ousadia comercial. Não serão os burocratas da APEX queimando recursos dos contribuintes que farão isso nos escritórios luxuosos espalhados pelo mundo, mas os empresários individualmente ou consorciados em grupos de interesses.

Há, sim, saídas para a indústria de calçados de Franca não sumir nos próximos vinte anos. O que não há mais é o tempo a ser perdido. – Qualquer medida no sentido de economias, de racionalização, de métodos de trabalho mais atualizados, da criatividade e agressividade nas vendas demanda tempo.

Será que conseguiremos recuperar pelo menos um pouco do tempo e do espaço que já foi perdido para os nossos concorrentes mais ágeis?

Zdenek Pracuch