A IMPRESSÃO 3D

Nada melhor que os fatos para desmentir opiniões. Há pouca semanas tive a ousadia de comentar que, sob o ponto de vista tecnológico, não podemos esperar grandes novidades para a indústria de calçados. Escrevi, que a atenção deveria ser concentrada no aprimoramento da gestão e da comercialização condizente com o terceiro milênio.

Hoje, os fatos me desmentiram e me sinto feliz por isso porque, de uma certa maneira, isso pode representar uma redenção da indústria de calçados e o seu enquadramento dentro das solicitações dos tempos novos. O que escreverei daqui para diante pode não significar grande coisa para os leigos ou para as pessoas não tão familiarizadas com os problemas da indústria de calçados.

Precisamos entender alguns fatos básicos. O tempo de empresas com grande produção contada em dezenas de milhares de pares por dia, irremediavelmente passou. Neste campo perdemos, definitivamente, para os países realmente subdesenvolvidos. Para onde estão migrando grandes grupos brasileiros, fechando fábricas no Nordeste e emigrando? Este é um aspecto.

Outro aspecto, digamos, de uma deficiência crônica é o tempo e custo da elaboração de novas matrizes, principalmente para solados e saltos que dependem, ou melhor dependiam, de uma mão-de-obra altamente especializada e de equipamentos metalúrgicos sofisticados. Como consequência, a flexibilidade e adaptação aos ditames da moda foram muito prejudicadas, porque o alto custo da matrizaria só seria amortizado com grande número de unidades produzidas, sem falar no tempo gasto, tão importante nos lançamentos de produtos novos, de moda.

Como se vê, o problema é complexo e a solução parecia fora do alcance da indústria de calçados. Não é que ainda em 2012, para facilitar a vida em 2013, surgiu a nova tecnologia de impressão em 3D que soluciona este problemas de vez? – A denominação de “impressão 3D” pode desorientar se olharmos a técnica com olhos acostumados com as impressoras de informática. O único ponto em comum é a metodologia de impressão.

O resto caminha em direção diferente. Como trabalha a impressora em 3D? O desenho tridimensional é criado num computador comum, é óbvio que, por um programa especial. Depois de determinado o material, que pode ser qualquer polímero ou até concreto (para levantar as paredes de casas, sim senhor) a máquina começa imprimir, ou seja, a colocar camada sobre camada, de 0,1 mm de espessura até 2,5 cm no caso do concreto, até formar o objeto em terceira dimensão.

Não precisamos ter uma fantasia exagerada para ver o que isso significa para uma fábrica de calçados que pode criar um solado diferente para cada modelo, enfeites originais idem idem, enfim, a criatividade poderá ter uma expansão nunca imaginada.

Segundo os fabricantes da máquina, o custo hoje gira em torno de USD 2.000,00 o que não assusta ninguém acostumado com o preço de máquinas hoje em dia. Acredito que, com duas ou três máquinas, trabalhando em dois ou três turnos, poderíamos produzir de 500 a 800 pares de solas por dia, o ideal, hoje em dia, para trazer sempre novidades para o mercado e não simplesmente, acompanhar as tendências, mas criar as tendências.

Com a larga aceitação deste novo método de produzir originalidade em escala menor mas exclusiva, por custo reduzido, nunca antes imaginado e pelo sucesso desta tecnologia no ramo de confecções (roupas sintéticas) e de calçados, acredito que as primeiras máquinas serão exibidas talvez já na próxima FIMEC e viveremos uma nova revolução industrial ainda no decorrer deste ano.

Não é fantasia, não. Esta tecnologia já está disponível no Brasil, na USP que mantém parcerias com a Embraer, Petrobrás e Marinha. Nos Estados Unidos a Boeing já produz mais de 200 peças de avião com esta nova tecnologia. Desta vez a indústria de calçados tem uma chance única de formar na equipe de vanguarda industrial!

Zdenek Pracuch
25/02/13