ALMOXARIFADO OU DEPÓSITO DE LIXO?

O desperdício é um mal endêmico no Brasil. Um País que nunca sofreu uma guerra, com um clima privilegiado, para que poupar ou fazer economias? Dizem as estatísticas que se perdem até 20% das safras de grãos entre o campo e o destino final. – Bem, na indústria de calçados a situação não é melhor. O desperdício corre solto e é encarado como um fenômeno natural.

Devoluções, re-trabalho ou desperdício no corte representam bem mais do que os 20% das safras perdidas. Enquanto a clientela pagava, ainda era suportável, mas nesta guerra competitiva em que já estamos empenhados, todas as economias e, principalmente, nos itens que representam a metade dos custos torna-se uma questão de sobrevivência.

Administração de materiais.

De vez em quando alguma entidade de classe promove um seminário ou curso sobre a administração de materiais. É óbvio que os donos de empresas não precisam participar destes cursos, do mesmo modo como chefes de produção ou almoxarifes. Ninguém precisa ensinar nada a eles. Já sabem tudo.

Resultado – mandam um infeliz auxiliar de almoxarifado, que não tem autoridade para mudar nada, mesmo se quisesse, e o coitado fica ouvindo uma ou mais noites preleção de um “guru” sobre fifo, lifo, nifo ou peps (em português) sem saber o que fazer com isto.

Geralmente os gurus esquecem de avisar que entre as ferramentas para administrar um almoxarifado, além de um terminal de computador estão também uma vassoura ou espanador. O método 5 S ainda é pouco difundido e é nos fundos das prateleiras ou nos cantos dos almoxarifados onde encontraria sua maior aplicação.

Dinheiro vivo.

É impressionante ver, como os nossos empresários, tão ciosos de controle de despesas ficam cegos e não se importam de ver como são tratados os materiais ou insumos. Tudo o que entra no almoxarifado foi ou será pago, com dinheiro que custou a ser ganho. Porque, então, este material é tratado com descaso quando se trata de dinheiro vivo sob outra forma? Porque será que o material é mal arrumado, precariamente empilhado, pisado e jogado de qualquer modo? Porque os “restos” são tratados como lixo? Porque as peças, porventura cortadas a mais, são guardadas em caixotes e sacos para serem esquecidas em vez de serem aproveitadas na primeira oportunidade?

O dono da fábrica é capaz de convocar um comício por causa de uma nota de compra de café, mas não se preocupa com material mal comprado, mal armazenado e mal distribuído e que importa em centenas e milhares de reais.

Armazenagem.

Quanto material se estraga antes de ser usado pelo fato de estar armazenado impropriamente. Uma pilha de camurção ou nubuck graxo com altura maior que 60 cm prensa o pacote no fundo de tal modo que força o afloramento da graxa do couro causando manchas. Uma pilha de altura igual, de vaqueta, irá deixar marcas nas peles que não será possível corrigir.

Rolos de sintéticos dos quais foi retirada a embalagem original sofrerão a evaporação dos agentes emolientes causando trincamento do material quando usado depois de certo tempo. Solas de borrachas e de polímeros sofrerão com a oxidação e assim por diante.

Sob o aspecto de segurança, causa arrepio ver os tambores de colas e de solventes no meio do almoxarifado, bem no centro da fábrica. E para coroar, como decoração, um extintor de espuma d'água, sem serventia neste caso, mas mesmo assim inacessível, porque está com acesso atravancado por caixotes e pacotes.

Sobras de material.

Além das sobras diárias de material provenientes da manipulação de materiais ainda temos sobras oriundas das “coleções passadas”. Sobras que em muitos casos representam uma boa parte dos lucros. A não ser que se trate de cores impossíveis de usar (no sintético – porque couro sempre podemos tingir), numa indústria de calçados não pode existir sobra de material.

Tudo pode ser usado até o último pé quadrado, ou decímetro ou até o último par de sola. Dá para desconfiar da capacidade da gestão de uma empresa, onde o pessoal faz “banco de horas” (que nunca pagará além de representar uma ilegalidade) e o almoxarifado estar cheio de material “que sobrou”!!! Gente, acordem, façam calçado!!! Que sempre será vendido. Existe um tabu sobre a pronta entrega. Foi criada uma psicose, que a pronta entrega é sinônimo de qualidade inferior por causa de pedidos cancelados ou pelas devoluções que ocasionavam a pronta entrega. – A organização de vendas e a pressão dos importados, daqui para frente está caminhando para pronta entrega de todos os pedidos – é bom irem-se acostumando.

Uma boa gestão.

Uma boa gestão da indústria na área de produção começa pelo recebimento, armazenagem, distribuição e controle de materiais e insumos. Nesta área são administrados, muitas vezes, mais da metade dos custos do produto. No entanto trata-se de uma área muito negligenciada, confiada a um pessoal, embora bem intencionado, sem preparo nenhum para o exercício da função de almoxarife e de controle de materiais.

Como já disse acima, material é o dinheiro vivo sob outra forma, mas não deixa de ser dinheiro. Duvido que alguém, por mais rico que seja, pisaria sobre uma nota de um real. Mas estou acostumado a ver placas brancas de EVA ou materiais semelhantes pisadas sem dó no chão dos almoxarifados. Rolos de tiras, viras e de gorgurões desmanchados, vi cones de linhas pela metade jogados nas caixas e empoeirando, restos do corte empilhados sem nenhum cuidado – quanto desperdício e quanto dinheiro jogado fora!

O conselho aos donos de empresas é TBC, ou seja, Tirem a .... da Cadeira e dêem uma volta, com olho crítico, pela fábrica mas, principalmente pelo, almoxarifado. Se voltar satisfeito para a sua cadeira, das duas uma: ou a sua empresa está entre os 5% das empresas realmente bem geridas ou precisa marcar com urgência visita a um oftalmologista.

Zdenek Pracuch