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NÃO SE FAZEM MAIS CALÇADOS COMO ANTIGAMENTE
Voltando de um trabalho de assistência técnica numa grande indústria de calçado de trabalho e militar, meditando sobre tudo o que vi, foi que me ocorreu o antigo bordão – é, não se fazem mais .... O problema consistia na montagem. Rugas, calçado mal assentado na forma, material sobrando, montagem torta e assim por diante. Numa análise mais precisa foi fácil descobrir a causa da maior parte dos desacertos. Palmilha mal construída, mal preparada e pregada descuidadamente. O contraforte sofria dos mesmos males. Obviamente a construção toda se ressentia da base mal trabalhada. Fiquei pensando, onde é que se perdeu no decorrer de tempos a sabedoria sapateira? Aonde foi parar o conhecimento dos velhos sapateiros, intuitivo, porque a ciência daqueles tempos idos não atingia o grau de sofisticação de hoje. Por outro lado, de que nos servem todos estes conhecimentos se não os aplicamos? Vejamos dois aspectos concernentes á palmilha. Conceito técnico e conceito higiênico. Sob ponto de vista técnico a construção da palmilha exige coordenação entre aspectos anatômicos, geométricos e aritméticos. A palmilha é baseada na planta da forma. Certo. Mas e se a planta da forma já não obedece os aspectos citados? Cabe a pergunta – quantos de nossos formeiros ou modelistas tem a preocupação de orientar as criações deles por estes critérios científicos? E quanto aos aspectos de saúde e higiênicos estamos também em posição nada favorável. Os pés e, principalmente, a planta dos pés, são extremamente sensíveis e importantes para a saúde dos pés. Qualquer ofensa aos pés no sentido físico, térmico ou traumático traz conseqüências desagradáveis sobre o organismo e o corpo inteiro. A reflexologia prova, que todos os órgãos e glândulas do corpo tem seus terminais nervosos ligados á planta dos pés, do mesmo modo, como as pontas dos dedos das mãos. Massageando os terminais nervosos situados na planta dos pés, a medicina oriental, a chinesa em especial, há milênios trata das disfunções orgânicas com sucesso. Quando os nossos ancestrais o hominídeo de Cro-Magnon ou Neanderthal se tornaram bípedes e andavam descalços a massagem acontecia naturalmente. O que acontece hoje? Em nome do conforto acolchoamos o mais possível a planta do pé, um conforto discutível e anulamos todos os estímulos nervosos, que poderiam estimular a atividade orgânica ou glandular. – Já viram os massageadores das plantas dos pés, de bolinhas de madeira, debaixo das mesas do escritório? É pouco, mas já é alguma coisa no rumo certo de estímulo saudável. E os materiais usados para a palmilha? Eu sei, aspectos econômicos, aspectos de produtividade, de disponibilidade de matéria prima etc., senhores podem levantar todas as questões. Concordo, mas desde que esteja preocupado com a saúde dos pés tenho que discordar. O único material adequado para a palmilha ainda é o couro – curtido vegetal. Nem curtido ao cromo, este não serve. Porque, até hoje os calçados mais renomados dos ingleses Church, Nettleton, McAffee ou franceses Bertier, Andrais e outros, só usam palmilha de couro, e a calcanheira só cobre a parte debaixo do calcanhar, para que o pé possa estar em maior contato possível com couro legítimo? A resposta está no alívio que sentimos á noite quando tiramos o pé da fornalha em que se transformou o nosso calçado durante um dia de calor, com palmilha feita de celulose e materiais sintéticos. Situação desagradável agravada ainda mais com forros sintéticos, ou de couro acabados com poliuretanos no lugar dos velhos acabamentos a base de caseina, onde o couro absorvia o suor. Só na planta dos pés temos 60.000 glândulas sudoríparas. Num estudo feito para antiga Força Pública do Estado de São Paulo na década de sessenta, verificamos que um soldado calçando coturno, pode eliminar até 400 ml de suor através dos pés, num dia quente. No dia em que os médicos começarem a relacionar a saúde dos pés com o bem estar do corpo inteiro, acredito, que alguns conceitos que hoje passam desapercebidos, serão cobrados pelos compradores de calçados e, pelo menos em parte, produziremos mais calçados como antigamente. |
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