APERFEIÇOAMENTO DOS PRODUTOS
A indústria que quer sobreviver tem que acompanhar a vida. E o que caracteriza a vida? Constante evolução, em todos os sentidos. Basta observar as mudanças que ocorreram em nossas vidas, em torno de nos, no decorrer de uma geração. Nem todas, obviamente, eram para melhor, mas a imensa maioria fez as nossas vidas mais confortáveis, mais saudáveis e mais interessantes.
A indústria de calçados passa por estágios de evolução, do mesmo modo, em todos os sentidos, não só pela evolução tecnológica mas, principalmente, pela evolução conceitual. Vou logo demonstrar onde é possível identificar de um modo irrecusável e existência destes estágios.
Na área tecnológica a demonstração da evolução é fácil. Das complicadas construções de calçados do tipo palmilhado, passamos ás construções como o tipo ensacado, onde podemos dispensar todo maquinário da montagem..Da trabalhosa elaboração de solas de couro passamos para unisola injetada ou prensada, ou até injetada diretamente sobre o cabedal. Do calçado que levava dez a quinze dias para ser confeccionado evoluímos até o ponto, onde hoje produzimos calçados acabados em cinqüenta minutos.
Esta é evolução visível, facilmente e perfeitamente documentada. A outra evolução, a evolução conceitual é mais difícil de perceber e documentar, mas ela existe. E como existe!
O primeiro estágio evolutivo foi, digo foi, porque já foi superado, o de qualidade. A qualidade, que muita gente apregoava como fator de excelência de determinadas marcas tornou-se uma obrigação. Hoje a qualidade é um ponto indiscutível. Não tem qualidade? Nem tente entrar no mercado! O consumidor está cada vez mais consciente dos seus direitos, apreendeu reclamar e exige retribuição justa pelo real suado com que adquire os produtos. Hoje a qualidade é exigida em todos os setores a partir da qualidade de vida que levamos.
Segundo estágio evolutivo, do qual devagar já estamos saindo, é o do conforto. Ai de quem hoje tentar desafiar o conforto. Pelas estatísticas de fatores que influenciam a decisão de compra do calçado masculino, 46 % dos compradores declararam que o conforto é o fator decisivo na compra. E, pasmem, só 3 %, sim, três por cento! dizem que é o preço (a despeito de toda choradeira dos lojistas que sempre querem um descontozinho).
Infelizmente, esta estatística não se aplica ao calçado feminino, porque a psique feminina é regida por outros parâmetros. Agora mesmo, a minha esposa comentou sobre uma conhecida, que comprou um calçado por que gostou, mas nunca usou. Para a indústria de calçados, esta é uma cliente ideal. Temos casos de compradoras, que querem levar determinado modelo na determinada cor e conseguem enfiar o pé num calçado dois tamanhos menor, do que o pé, porque a loja já não tinha o tamanho adequado.
De qualquer modo, o conforto hoje já é uma grandeza entre os fatores decisivos para a compra, que não pode ser desprezada. Até as marcas tradicionais, que primavam pelo design e pouco se preocupavam com conforto, hoje já se curvaram e adaptam as formas, o design do produto e materiais usados para oferecer aos usuários o maior conforto possível.
A linha mais recente de evolução, ainda bastante tímida, embora já visível, é a linha da saúde dos pés. Não é de se estranhar que apareceu e está tomando um lugar no poder decisório de compra do calçado. Com tantas reportagens, livros, academias de torturas do corpo, a saúde (e a sua preservação) está tomando um lugar cada vez mais saliente na vida diária das pessoas. E que os pés representam um fator ponderável no bem estar do corpo, quem pode ter dúvida?
Em que consiste este aspecto de criar produzir o calçado saudável? A base do calçado é a forma. Grande tarefa espera os formeiros, que devem aconselhar (se souberem) os seus clientes, sobre o que é uma forma anatomicamente perfeita. Neste ponto deveria servir de exemplo o grande produtor de formas gaúcho-alemão Oscar Kunz. Não adiantava pedir-lhe para produzir uma forma, que na opinião dele não era anatomicamente perfeita. “Leve para outro, esta forma não vou fazer, não vai levar meu nome!” E não fazia mesmo.
Depois da forma temos a construção. A construção do calçado deve oferecer a maior flexibilidade e leveza possível. O pé calçado deve se sentir como se estivesse descalço. Se a noite ao tirar o calçado a pessoa sente alívio, o produto está com alguma deficiência. E o terceiro ponto é a escolha de materiais. Materiais, mesmo sintéticos, que consigam imitar ou substituir as vantagens que os materiais orgânicos – couro, algodão, seda – nos oferecem: absorção de umidade, respiração, refrigeração.
Acho exageradas certas exigências como, por exemplo, a da União Européia, de proibir o conteúdo maior do cromo hexavalente no couro que 13 mg por quilo da matéria, ou proibição do níquel nas fivelas ou ilhós, por serem cancerígenos. Vamos usar o bom senso. Mas vá lá, em nome da saúde, vamos baixar a cabeça e nos adaptar. Mas temos que reconhecer que não tem sentido usar couro natural na curtição e acabá-lo com polímeros e desta maneira torná-lo impermeável idêntico ao sintético!? Por que não usar o forro de têxtil orgânico, hoje, quando já temos têxteis até com fibras de bananeira ou de bambu?
Que campo enorme para criatividade e inventividade! E que argumento para venda, desde que bem documentado e alertando o público comprador sobre a vantagem de usar calçado produzido sob estes critérios? A vida não parou a evolução contínua continua.
Zdenek Pracuch