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QUEM DIRIA, ATÉ A INDÚSTRIA DE AUTOMÓVEIS ! Há mais de dois anos venho alertando sobre o perigo que a China representa para a indústria de calçados do Brasil, dado o despreparo e a acomodação das nossas elites empresariais. Longe de mim, de suspeitar da facada nas costas, desferida pelo assessor especial para assuntos externos do presidente Lula, senhor Marco Aurélio Garcia, com a sua pretensão ridícula de ser embaixador do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, com a cadeira permanente, para sentar ao lado dos camaradas da Rússia e da China. Para ganhar o apoio chinês escancarou a porta às importações, declarando a China como uma nação de mercado livre! Chineses nem deram bola para a pretensão dele, mas não perderam tempo com a abertura das fronteiras. A manifestação dos operários têxteis, que já lamentam 240.000 empregos perdidos e diáriamente assistem ao fechamento de mais empresas, é sintomática. Os empresários e operários calçadistas ainda esperam por um milagre da parte do governo. Mas o governo não vai irritar os camaradas chineses, por causa de uns tecelões e sapateiros. – A novidade é que, até a indústria de automóveis, um dos ícones da economia e berço do sindicalismo radical, se vê acuada e assustada. Não faltam vozes na mídia de que, no máximo dentro de cinco anos, a China, tirando vantagem da bobagem cometida pelo governo do Brasil, vai aproveitar a porteira aberta e inundar o país com carros das montadoras internacionais, fabricados na China, bem mais baratos. A greve dos metalúrgicos da Volkswagen mostrou claramente que o rei está nu. A Volkswagen está obrigada a fechar uma fábrica obsoleta e improdutiva para ter condições de competir. A fábrica de São Bernardo produz 33 carros por funcionário. A Toyota nos EUA(!) produz 74 carros por funcionário. O que o governo pode fazer neste caso? Nada e nem lhe compete fazer nada. O problema da obsolescência e de pouca competitividade é problema empresarial. O governo tem culpa (ou mérito?) de ter apressado a aparição deste problema mais cedo. Esta acomodação ou desprezo da realidade não é privilégio dos empresários brasileiros. Na década dos anos 80 os empresários americanos davam risada sobre o empenho dos japoneses em produzir carros, TV's, câmeras, copiadoras, etc.. Onde estão hoje os produtos americanos? No esquecimento. Os mais jovens não sabem mencionar sequer uma marca do rádio, TV ou câmera americana. Tirando a Ford e General Motors, quantas marcas sobreviveram? E estas duas vivem numa crise permanente. Até a poderosa IBM vendeu sua divisão de PC's aos chineses. Lição para calçadistas O que podemos apreender dos episódios que vivenciamos? Primeiro fato: a economia global é uma realidade e não adianta tergiversar ou fugir do assunto. A realidade está aqui e as estatísticas comprovam a perda do mercado exportador. Ainda não temos estatísticas confiáveis (ou se as temos, estão bem escondidas) sobre a entrada do calçado importado, absorvendo a fatia do mercado que parecia cativa. Segundo fato: a obsolescência das nossas indústrias de calçado é fato notório. Atenção, não me refiro ao equipamento. Temos máquinas moderníssimas. O que está obsoleto é a tecnologia e o gerenciamento. O desperdício sob qualquer ponto de vista dentro das nossas indústrias de calçados é catastrófico. Enquanto não havia comparação com produtos mais baratos os clientes pagavam. Mas, no momento em que alguém vai oferecer o mesmo produto com preço sensivelmente mais baixo (e ainda tendo lucro!) é fácil deduzir o que acontecerá. Diariamente enfrento a abordagem deste problema no convívio com os empresários. O problema de desperdícios, de obsolescência e, principalmente, da acomodação está sempre presente e parece que não há argumento que possa fazer a pessoa mudar de postura e tentar enxergar a realidade. Obsolescência e acomodação As pessoas, simplesmente, não conseguem imaginar, que o que faziam vida inteira, pode ser feito de maneira diferente, mais eficaz, menos dispendiosa e mais lucrativa. Olham em torno e vêem, que todos fazem a mesma coisa e do mesmo jeito e, por senso tribal, acham-se protegidas e acham que não há necessidade de mudar, já que todos fazem o mesmo. Escrevi há pouco tempo sobre a equação: Talvez não tenha frisado melhor, que no mundo dinâmico de hoje a acomodação é igual a uma sentença de morte. O tempo perdido para se adaptar e prosseguir em um novo rumo nunca mais voltará. Exemplo Dou um pequeno exemplo sobre a defasagem nos controles de planejamento de produção: a grande maioria das empresas de calçados brasileiras ainda não adotou o código de barras como elemento de controle do andamento de produção. Enquanto no resto do mundo já temos, como equipamento normal, o uso dos chips RFID colocados dentro de cada pé do calçado individualmente. Com isso podemos localizar instantaneamente a ficha de produção à qual o calçado pertence, podemos fazer inventário, sem pegar na caneta e fazer listagens, podemos conferir os embarques sem abrir as caixas etc. etc. etc.. A obsolescência de métodos de produção é outro capítulo dolorido. Fazemos calçado do mesmo modo como se fazia na primeira metade do século passado. Os pespontos são um retrato do atraso, a partir da modelagem irracional e prosseguindo com métodos de costura obsoletos em máquinas inadequadas. O planejamento é solenemente desconhecido ou, melhor, é confundido com a digitação de fichas de produção. Planejamento de vendas? Quando abordo o assunto a resposta, geralmente é: Mas isso é possível? Não só é possível, mas é imperioso! O acompanhamento do capital de giro, resultados econômicos da empresa acompanhados semanalmente ou pelo menos mensalmente, diminuição de produtos em circulação pela fábrica, tudo isso é imprescindível para uma boa gestão. – E vejam: na indústria de automóveis existe tudo isso e, não obstante, já estão preocupados desde hoje com a competição chinesa! Stoyan Sgourev e Ezra Zuckerman da Sloan School (Sloan foi o legendário criador da General Motors) dizem que “a fixação no que é local, freqüentemente leva os fabricantes a ignorar os acontecimentos mais distantes, que provávelmente são fontes importantes do aprendizado”. – Eu completaria que as fontes mais distantes podem, também, representar uma ameaça muito séria se forem ignorados. Num céu de brigadeiro qualquer um pode ser um bom comandante. É numa tempestade que se saberá quem realmente sabe comandar com segurança. Infelizmente, sinto pena pelos muitos que dependem deste conhecimento, porque para eles está se aproximando a hora fatal. |
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