SOBRETAXAS? BARREIRAS?
A julgar pelos pronunciamentos e pleitos dos dirigentes das entidades representativas da indústria brasileira de calçados, o maior problema que afeta o desempenho da indústria é a concorrência desleal dos importados, principalmente da China. E a solução é tão simples, no dizer destes representantes: sobretaxar com alíquota proibitiva e, pronto, o problema será solucionado. Oxalá fosse tão simples assim.
Os dignos representantes das entidades calçadistas parece que já esqueceram, ou eram ainda jovens demais, para ver o que representou a reserva do mercado, durante os governos militares para a indústria de informática brasileira (será que ainda existe alguma?). Até hoje não se recuperou do atraso que a cômoda reserva de mercado proporcionou.
O problema é muito mais sério, do que impor a sobretaxa e dificultar a entrada dos importados. A prova disso está nas nossas exportações, que já praticamente cessaram para os países grandes compradores. Paises estes que representam muita coisa na economia e no poder de compra.
Os representantes dos calçadistas, bem como as FIESP, FIEMG, FIERG e outras fariam melhor procurando lutar no Congresso e sensibilizar o governo para efetuar as reformas tão necessárias, prometidas durante os oito anos do governo passado e que continuam dormindo o sono dos justos nas gavetas do governo atual. Quais reformas? As duas mais importantes: A tributária e da legislação trabalhista.
Como a indústria calçadista pode ser competitiva se carrega embutido no preço um valor acumulado de impostos da ordem de 39,6 %? Se devido aos encargos trabalhistas o valor da folha de pagamento, ou seja, o custo de mão-de-obra praticamente dobra? E ainda assistimos a aprovação pelo Legislativo do pagamento do aviso prévio em função dos anos trabalhados! Para que, então, existe o Fundo de Garantia pelo Tempo do Serviço? Como o próprio nome o identifica? E o malsinado Auxílio de Desemprego? Que virou uma fonte de recursos para os mal intencionados?
Não existe, hoje, um gerente de produção, que já não tivesse sido provocado por algum funcionário – me mande embora, se não gosta do meu serviço! Mas isso nunca acontece antes de completar seis meses de carteira assinada. Depois disso entra na fila dos “desempregados”, trabalha sem carteira assinada e tem duas rendas garantidas! Mais a rescisão do contrato com mais quarenta por cento de acréscimo..... Quantas motos e até automóveis já não foram financiados assim?!
Por que as entidades, mesmo sabendo destas distorções, não se manifestam? A sobretaxa que tanto pleiteiam, a primeira, já está em vigor e o que aconteceu? De prático nada. As importações continuam subindo na mesma proporção que as exportações estão caindo. Soma-se a isto a desastrada política cambial do governo e o quadro está completo. Pouco se fala da desindustrialização, mas ela já está aqui!
As exportações de manufaturados e de semi-manufaturados estão decrescendo a cada ano. As commodities representavam 29 % das exportações em 2006. Em 2010 já foram 45 % (Exame, 14.12.11). Brasil está se tornando um grande fornecedor dos produtos do agronegócio. Nada mau, considerando que hoje já existem 7 bilhões de bocas no mundo para alimentar. Mas agroindústria gera pouquíssimos empregos. Enquanto a indústria e, principalmente, a de transformação é empregadora por excelência. Mas já sentimos o que está acontecendo com a indústria de calçados, têxtil e de confecções, moveleira e ótica ou até a indústria de fogos de artifício, embora, pelo menos esta com a Copa do Mundo a vista pode ter a agonia adiada.
O Brasil tem belas reservas cambiais, mas criadas principalmente pelos preços favoráveis das commodities. Mas é uma posição muito frágil. Basta um soluço na economia do nosso principal parceiro comercial de hoje, a China, e as reservas vão se evaporar do mesmo modo como cresceram!
Mas, não seria justo culpar só as entidades representativas pela inação. A indústria de calçados, pela parte que lhe toca, também não se precaveu ou atualizou para enfrentar as dificuldades que a economia global trouxe no seu bojo. A indústria no seu todo continua hoje produzindo com os mesmos métodos obsoletos do século passado, ignorando na sua grande parte as modernas metodologias de gestão.
Estamos presenciando desperdícios injustificáveis em todas as frentes, sejam os materiais, os insumos, mão-de-obra, tempo, energia – enfim tudo o que pode ser desperdiçado, desperdiçado está. Isto na parte de produção e gestão. Na parte da comercialização vemos pouquíssimas empresas adotando os métodos de venda compatíveis com o terceiro milênio, praticando métodos da primeira metade do século passado.
A acomodação campeia solta, impera o medo da aplicação de novas idéias compatíveis com tempos modernos. Falta mão-de-obra qualificada, mas praticamente nada se faz para corrigir esta falha a não ser reclamar. Até hoje não recebi uma resposta convincente para a pergunta: por que ao lado de fábricas, poucas lamentavelmente, que produzem calçados em questão de horas, temos outras que necessitam de duas semanas para produzir um pedido? Deste modo vamos competir com quem?
Há saídas para esta situação, nada confortável, da indústria de calçados, que parou de exportar e vê o mercado interno diminuir em função dos importados. Mas, definitivamente não será através de imposição de sobretaxas e barreiras alfandegárias que esta situação será corrigida.
Entidades, representantes da classe, mudem de foco enquanto há tempo! Empresários, adaptem as suas atuações ao ambiente global!
Zdenek Pracuch
30/01/12