SISTEMA BATA DE GERENCIAMENTO NA
INDÚSTRIA DE CALÇADOS

A revista Management World traz a notícia sobre o simpósio para os estudiosos  das ciências de administração, para analisar e difundir as técnicas de gerenciamento do chamado sistema BATA. Pretende-se alargar a base da aplicação para além da indústria de calçados. Nada de novo, porque na ex-x-Tchecoslovaquia, antes da Segunda Guerra Mundial este sistema de gerenciamento já era aplicado nas empresas da própria Bata, fabricas de máquinas, de aviões, de pneus, têxteis, curtumes, fazendas, estrada de ferro, navegação e fazendas de propriedade da organização Bata.

Este sistema foi criado nos anos vinte, do século passado, pelos irmãos Tomas e Jan A. Bata e constantemente aperfeiçoado em todas as industrias Bata ao redor do mundo. Obviamente o grupo Bata nunca teve interesse em divulgar este método. Seria, o que provérbio brasileiro tão bem define como dar leite á cobra. Não obstante, duas indústrias em Franca, que implantaram o método, colheram resultados espetaculares há 30 anos atrás. O crescimento meteórico da Calçados Samello nos anos sessenta, em boa parte foi devido á implantação deste sistema.

A Marluvas - Calçados de Segurança em Minas Gerais implantou o sistema em 1998 e hoje é a maior indústria de calçados de segurança na América do Sul. Alcançou o crescimento de 327% em três anos, como resultado dos controles implantados e da conscientização da chefia sobre o gerenciamento dos centros de custo.

Em que consiste o sistema Bata? Como todas as grandes idéias prima pela simplicidade. O sistema parte de algumas premissas gerais, mas até simplistas:

- Empresa foi criada para dar lucros.

- Pessoas gostam de ganhar.

- As pessoas cuidam mais do que consideram como sendo delas.

- O trabalho deve proporcionar satisfação e o prazer da realização.

Consideradas estas premissas foi desenvolvido um sistema, que no decorrer dos anos se tornou tão perfeito quanto as limitações humanas o permitiram. Vejamos como funciona:

1 • A empresa é dividida internamente em centros de custo, que funcionam como unidades economicamente independentes, como se fossem empresas individuais: p.ex. almoxarifado, corte,  pesponto, injeção, montagem, manutenção, transporte, administração, vendas, social, segurança etc..

2 • Cada chefe administra o centro de custos dele, como se fosse dono da empresa. Recebe crédito para “comprar” o couro para cortar e “vende” peças cortadas para o pesponto, devolve o crédito do empréstimo e dependendo da capacidade dele de fazer economias e administrar, pode obter lucro ou prejuízo. O pesponto que “comprou” o couro cortado e mais os insumos “vende” por sua vez os cabedais costurados para a montagem e, assim, por diante.

3 • O chefe da seção deve controlar os gastos, aprovados previamente pela seção de custos, acrescidos de uma parcela de lucro. Se conseguir economizar (por exemplo, ocupando menos gente que o previsto ou ele mesmo consertando as máquinas), a seção dele apresentará lucro. Porque se precisar de mecânico, “pagará” pelo serviço dele á manutenção. Como participa da economia, ou melhor, do lucro da seção dele, é melhor para ele não chamar o mecânico, e consertar sozinho o equipamento. Se gastou a mais, por exemplo, com material estragado, com pessoal mal aproveitado, assistência técnica de mecânicos em excesso, terá prejuízo e ainda será chamado para dar explicações.

4 • A contabilidade, que na Bata se chama de empresarial, para diferenciá-la da oficial, da industrial, de custos ou de resultados, e que usa os dados da contabilidade oficial nas contas de compras, faturamento e de despesas, é completamente independente, faz fechamentos semanais de lucros ou perdas de cada centro de custos. Assim é possível tomar medidas corretivas imediatamente, quando as fontes de prejuízo são identificadas, sem perda de tempo.

Parece complicado? Não é. Toda a tramitação é feita dentro da contabilidade empresarial. Para os encarregados das seções não há acréscimo de trabalho. Há sim, acréscimo de um sentido de maior responsabilidade sobre o desempenho de cada centro de custo e, por conseqüencia, dele mesmo.

Vou citar alguns exemplos :

Corte – pelo cálculo de consumo do material, cálculo de mão-de-obra, cálculo de material de expediente etc., o centro de custos recebe o crédito pelos pares cortados no plano diário de produção, acrescido de uma porcentagem de lucro.

Caso o encarregado gaste mais do que o previsto com material, ou empregar mais pessoas do que necessário, consome o lucro e ainda causa prejuízo. O esforço dele deve ser no sentido da seção dele dar lucro.

Manutenção – Receita da manutenção provém da assistência oferecida pelos mecânicos na produção. Quando o mecânico termina o conserto do defeito, apresenta a nota de serviço ao encarregado da seção, sendo o valor do serviço debitado a esta seção e o crédito representa a receita da manutenção. O encarregado do centro de custo, com certeza ficará de olho para que o mecânico não estenda além do necessário o tempo do conserto, para não aumentar a conta do conserto.

Ambulatório – Cada consulta é debitada á administração no melhor estilo do SUS. Material aplicado no atendimento de pequenos acidentes é debitado aos respectivos centros de custo.

Administração – Recebe crédito rateado da parte do lucro previsto, pelo cálculo de custo e arca com as despesas de expediente, comunicações, viagens (que ás vezes caem na conta do depto. de vendas), salários administrativos, impostos etc. As despesas são previstas e cobertas pelo cálculo de custo de despesas indiretas. A diferença entre as despesas previstas e as realizadas representa ou lucro ou o prejuízo da administração. – Aí que está a importância do planejamento detalhado, antecipado.

Mas, o ponto mais importante do sistema é a participação nos resultados pelos encarregados dos centros de custo (seções). Cada encarregado sente a eficácia do gerenciamento dele no próprio bolso e evita, a todo custo, qualquer espécie de desperdício – do material,de mão-de-obra, de tempo ou por falta de qualidade. – De fato, ele é um pequeno empresário.

Só para exemplificar – no sistema Bata original, os centros de custo pagam á administração o aluguel pela metragem do espaço ocupado, pagam juros sobre o material em circulação ou amortização sobre o equipamento utilizado – para que? Para evitar espaços ocupados sem necessidade, para evitar material parado ou para requisitar máquinas sem pleno aproveitamento. É natural que, para se chegar a este refinamento do sistema, deve haver uma equipe bem treinada e afinada. Mas a Organização Bata prova que isso é possível em todas as partes do mundo.

Parece complicado? Mas não é. - Naturalmente, há muitos detalhes e pormenores técnicos que garantem por meio deste sistema um gerenciamento altamente vantajoso e eficaz, mas que não cabem neste artigo meramente informativo. A atratividade deste sistema salta aos olhos, quando se faz uma simples análise de valores. Numa indústria estruturada, a não ser pelo custo do treinamento, não há necessidade de nenhum investimento para o sistema funcionar. Senão vejamos:

        Quem não tem seção de cálculo de custos?

        Quem não tem seção de planejamento?

        Quem não tem contabilidade?

      Quem não tem entre os funcionários um(a) jovem promissor(a), de mente aberta para ser treinado(a) para operar o sistema?

        Quem não tem um micro computador?

        Quem não pode providenciar uma mesa e um canto no escritório?

        O mais é só o suporte da diretoria para vencer as resistências dos incrédulos.

        Nada mais

Este sistema funcionou (até no Brasil, quando foi implantado nos anos sessenta), até então não sonhávamos com computadores, nem tínhamos calculadoras eletrônicas. Tudo foi feito com Olivetti Divisuma de saudosa memória, quando não com as Facit de manivela! Funcionou, e como!

Não é difícil imaginar como é bem mais fácil e seguro administrar uma empresa, se no prazo de três dias posso identificar cada ponto onde ocorre o prejuízo! E tomar medidas corretivas imediatamente. Sem precisar esperar pelos balancetes mensais (duvidosos) ou até o balanço do fim do ano para saber que ganhei, digamos 1 milhão, Mas nunca ficarei sabendo, que poderia ser 1,5 milhão, porque nunca saberei onde este meio milhão foi perdido no computo geral. – Já repararam, como os contadores sempre ficam com ressalvas quando perguntamos, se o lucro apurado é de fato real. Mas, coitados, fazem o que podem, com o que dispõe em mãos. O que é muito pouco.

A competitividade está se tornando atroz. A globalização está dificultando, o que já não era fácil. Ameaça chinesa, que era uma ameaça distante, com a ajuda do governo brasileiro tornou-se uma realidade. - Quem não estiver preparado em todos os sentidos, e em todos os setores para esta concorrência, infelizmente, não vai sobreviver. Ainda sobra um pouquinho de tempo para se armar para defesa. - A produção, numa indústria, sempre foi fundamental. Mas se hoje não for baseada numa administração absolutamente sem falhas e eficaz no seu grau máximo, sozinha não vencerá esta batalha pela sobrevivência.

O sistema Bata de organização administrativa das empresas, com a valorização do elemento humano e ênfase sobre economias na produção e administração é uma das ferramentas que podem ajudar muito nesta luta por um lugar ao sol.

É bom não esquecer que uma das poucas coisas que o dinheiro não compra é o tempo.

A maior parte do tempo já se esgotou. Foi perdida para sempre.

Zdenek Pracuch