VIGIEM O CAPITAL DE GIRO !

Franca e região bem como toda a coletividade da indústria de calçados está acompanhando a agonia de uma das indústrias mais proeminentes do ramo calçadista. – O que está acontecendo? Por que isso está acontecendo?

As respostas podem ser múltiplas, mas uma verdade é incontestável. Isso não precisava acontecer. No começo da década dos anos sessenta, fui chamado pelo então diretor presidente, para introduzir na sua organização, então em franco crescimento, o sistema Bata de organização da indústria de calçados. Conheceu este sistema na Europa durante as suas inúmeras viagens, ficou encantado com o que viu e não descansou até achar alguém que poderia implantar este sistema para ele.

Com ajuda de dois contadores, um deles ainda vivo em plena forma, em Franca, implantamos o sistema tanto ao nível do chão da fábrica, como na administração. – Semanalmente, na reunião da diretoria apresentávamos o maço de documentos com resultados de todos os centros de custos, um por um, e o total dos dados complementares referentes ao desempenho geral.

Com a inteligência empresarial, absolutamente excepcional, o diretor-presidente logo percebeu a importância dos dados referentes ao desempenho do capital de giro e, quando os resultados eram apresentados, ia diretamente à última linha do terceiro documento.

Se o algarismo estava em tinta preta, estava tudo em ordem, estávamos de parabéns, o mundo era uma perfeição. – Mas, se o resultado estava em vermelho, o que significava que o capital de giro diminuiu naquela semana, a reunião se tornava o ensaio geral para o fim do mundo. Éramos um bando de incapazes, deste modo a empresa ia quebrar e muitos de nós quase lamentávamos de ter nascido.

A empresa pelo sistema Bata, não só controlava os resultados, mas também o que acontecia com ativos, de um modo, que os contadores clássicos nunca foram treinados para fazer, ver, analisar e orientar os dirigentes. Com base nestas premissas a empresa cresceu, se agigantou, chamou atenção fora da indústria de calçados e o resultado foi que se viu assoberbada pelas ofertas de consultorias de firmas internacionais.

Com referências impressionantes: General Motors, Phillips, Bank of Boston, IBM – estes ainda assisti, quando telefonaram para matriz informando ter descoberto um sistema de acompanhamento de resultados semanalmente, por cada centro de custos, tendo centro de custos até para o ambulatório e departamento de transportes!

É lógico que este sistema era pouco conhecido. Bata fazia muita propaganda. Mas nunca dos seus métodos ou sistemas! E, este sistema também foi idealizado só para indústria de calçados, embora Bata o utilizasse em outras indústrias de sua propriedade, na fábrica das máquinas (marca Svit – na época muito vendidas no Brasil), na fábrica de pneus, até na fábrica de aviões (fabricados até hoje - Zlin XX).

Os novos consultores implantaram na empresa uma infinidade de controles, índices disso, índices daquilo, de liquidez, de retorno, de relações custo – benefício, amortizações, provisões para obsolescência, cálculo de variáveis, custos padrão, cálculos de pontos de equilíbrio etc. etc. etc..

Só que, quando estes dados todos foram elaborados e apresentados, já pertenciam à história e poucas ações corretivas podiam ser feitas e eram tantos que, literalmente, sufocavam quem neles procurava obter uma orientação estratégica.

Para coroar o festival de consultoria ainda dividiram a empresa em quatro, cada uma com seu departamento de compras, almoxarifados próprios, gerência da fábrica própria. No lugar de um gerente da fábrica, tinha quatro gestores. Existisse a contabilidade de resultados, na primeira semana ficaria demonstrado o custo destas inovações trazidas para a indústria de calçados.

Quando voltamos a nos encontrar, depois de muitos anos passados na Europa, o diretor-presidente me chamou e sugeriu restabelecer o sistema. Respondi, que não daria tempo, porque teríamos de refazer tudo o que era feito à mão com calculadoras mecânicas (semanalmente!) e até que os programadores fizessem estes programas levaria muito tempo.

Sem mais palavras, ele entendeu, porque já doente de câncer terminal, não teria tempo de aguardar por isso. Este capítulo na vida dele e na minha estava definitivamente encerrado. Nenhum de nos dois sabia (ou será que ele suspeitava?) que também estava definitivamente selado o destino da obra da vida dele.

Sei dos encontros diários, que tenho com os empresários do ramo, de como andam mal informados sobre a gestão das empresas deles. Não há profissionais preparados para orientá-los e fornecer-lhes os indicadores simplificados, que possam ser entendidos com facilidade e que possam ajuda-los a conduzir os seus negócios.

Há muitos indicadores a vigiar, sim, mas o capital de giro, que é o sangue que movimenta qualquer empresa, tem que ser vigiado vinte e quatro horas por dia e qualquer sintoma de uma hemorragia interna tem que ser estancado imediatamente! O dinheiro disponível na mão exerce uma fascinação irresistível. E as aquisições, muitas vezes orientadas mais pela vaidade que pela necessidade, também. Mas os sinais de alerta podem ser identificados, desde que haja sistema para isso. Antes que seja tarde.

A indústria de calçados está passando por um período crítico. Varejo descapitalizado para fazer compras, mercado fazendo leilão para comprar o mais barato possível, sabendo disso os bancos estão reticentes em liberar o crédito para indústria de calçados, investimento de fora não existente, venda dos ativos só na base de jogar fora – a saída, então, é vigiar e tentar conservar aquilo que se tem.

Nunca antes neste País (não, não estou fazendo gozação do Ilmo. Senhor Presidente da República) foi tão necessária a aplicação da contabilidade de resultados do Sistema Bata, com todos os complementos que fazem parte dela e o controle do capital de giro é dos mais importantes. Ai de quem descuida ou não sabe fazê-lo. - O exemplo trágico está aqui para quem quiser ver.

Zdenek Pracuch

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