TURBINANDO A COLA

Quase todas as fábricas adicionam o isocyanato às colas que usam. Tornou-se um hábito. Pouquíssimas pessoas souberam me explicar, de pelo menos em tese, o porquê deste uso. A própria denominação popular de acelerador ou um pouco mais sofisticada de reticulante contém só meia-verdade.

O acelerador, ou reticulante, é um isocyanato, patenteado pela Bayer Química com a marca comercial Desmodur e produzido pela mesma Bayer embora os compradores (fabricantes de cola) tenham o hábito de colocar o seu rótulo próprio sobre o frasco original. É da mesma família dos isocyanatos que junto com polyol compõe o material que hoje conhecemos como polyuretano.

Mas o que ele faz na cola? Na verdade muito pouco. É até um dos resquícios históricos do tempo das colas mais primitivas que, de longe, não atingiam a eficiência das colas atuais, principalmente as na base do PU. No tempo das colas fortes ou sejam as colas de contato, na base de polycloropreno, o Desmodur era imprescindível para uma adesão de durabilidade elevada. O fenômeno de solas, principalmente as de EVA, que abriam nas vitrines onde recebiam o calor e a cola se reativava, era freqüente. E aí era que o Desmodur agia.

Dava às colas a resistência permanente, principalmente ao calor, que causava a reativação. O isocyanato apressa a cristalização definitiva das moléculas da massa da cola. Ou seja, torna a massa da cola, mais resistente, principalmente ao efeito do calor. E é praticamente só isso o que ele faz, e isto, com as colas de polyuretano, não representa vantagem nenhuma.

Não apressa a secagem antes da reativação da cola como se apregoa. A secagem só é terminada, quando todo vestígio de solvente desapareceu na atmosfera. Nas colas PU, também, não verificamos nenhum aumento significativo de resistência à tração ou rasgamento entre colas que foram aceleradas e as que não foram. Os fatores da reativação, como a temperatura suficiente, tempo de prensagem adequado e a regulagem da pressão eram mais significativos do que a aplicação ou não do isocyanato.

Após a cristalização ou com outras palavras, a estabilização natural das moleculas das colas com base no PVC ou PU após 72 horas, não há nenhuma diferença que justifique o uso intensivo do Desmodur. Repito novamente, com exceção de colas na base de polycloropreno as chamadas fortes . Pelo contrário, o uso inadequado do isocyanato nas colas com base no PU ou PVC (colocado em excesso ou cola com tempo vencido de duas horas), pode prejudicar a colagem.

Fica a critério de cada industrial se opta ou não pelo uso do isocyanato. Pela prática e pela observação posso afirmar com absoluta segurança que, obedecidas as regras de boa técnica de colagem e observado o intervalo de 72 horas até submeter o calçado ao uso, a aplicação ou não do isocyanato não faz nenhuma diferença.


Zdenek Pracuch