OS ETERNOS PROBLEMAS DE COLAGEM
Por que os problemas com a colagem e conseqüentes devoluções de mercadorias continuam a despeito da ótima qualidade das colas de todas as principais marcas de cola? As colas nacionais são de ótima qualidade, preparadas para o uso em grande variedade de materiais, sejam estes solados de borracha, de PVC, de PU, TPU ou EVA ou cabedais de couro, camurção, sintéticos, nylon, lonas ou o que aparecer.
As colas são ótimas. Mas o tratamento dado a elas por parte da indústria é péssimo. Os serviços de colagem são executados por pessoas com a mínima qualificação, instruídas por pessoas que nunca foram treinadas sob aspecto técnico sobre o uso e tratamento adequado de que as colas necessitam. Resultado? – Devoluções, reclamações e prejuízo na imagem da marca, como pouco confiável.
Os técnicos dos fabricantes de cola, para não criarem atritos com o pessoal das fábricas, aceitam passivamente as reclamações e transferem culpa para qualquer motivo aparente ou inventado.
Mas, não precisava ser assim. A colagem, hoje em dia, pode ser 100 % segura, desde que sejam obedecidas certas regras condicionadas pelas leis da física e da química, leis estas irrevogáveis e indiscutíveis.
Vamos ver a seqüência dos trabalhos que garantem uma colagem perfeita e segura, desde que obedecida na íntegra:
A - Limpeza dos resíduos de desmoldantes;
B - Asperagem mecânica com remoção completa de pó resultante;
C - Ou aplicação do halogênio;
D - Aplicação da cola base (com maior teor de solventes) desde que solicitada;
E - Secagem completa;
F - Aplicação da cola própria;
G - Secagem completa – é absolutamente necessário ser perfeita;
H - Reativação na estufa apropriada;
I - Apontamento de sola sobre o cabedal;
J - Prensagem;
K - Esfriamento para solidificação da cola;
L - Tiragem da forma;
Além destas operações seqüenciais temos ainda a adição do isocianato (reticulante, Desmodur da Bayer Química) na quantidade recomendada pelo fabricante de cola.
Pouca gente observa o “timing” ou seja os tempos rigorosos tanto na aplicação como na operação de colagem. Pouca gente tem consciência do papel do oxigênio na atmosfera e sua ação danosa pela oxidação. Oxigênio, na essência, nos permite viver, mas a sua ação é altamente corrosiva. Porque os médicos recomendam antioxidantes para a melhor saúde? Oxigênio corroe até o aço Inox. Infelizmente não existem antioxidantes para as colas.
O que existe é a possibilidade de abreviar o tempo, onde o objeto da colagem fica exposto à ação deletéria do oxigênio. Este tempo máximo é de duas horas. Ou seja – depois de duas horas, começa a ser criada a camada oxigenada que não permite uma colagem cem por cento. Em 1973 fizemos no laboratório da então Faculdade Pestalozzi de Ciências, Educação e Tecnologia (hoje Unifran) uma série de 12.000 testes de colagem e verificamos que, após duas horas de abertura com cola aplicada, sujeita á ação do oxigênio, a resistência de colagem diminuía em 45,42 % !!!
O vencimento do prazo de duas horas para halogênio é do conhecimento geral. Mas pouca gente sabe que este prazo também se aplica à asperagem, à aplicação da cola base e da cola própria. – Nas fábricas que deixam a cola passada de um dia para outro, ou pior ainda de sexta-feira para segunda-feira, pode ser verificado que as devoluções percentualmente correspondem ao número de pares produzidos neste período.
Outro aspecto perigoso e pouco observado é a temperatura de reativação e durante a prensagem.Não adianta procurar contornar aquilo que a química prescreve. - Para haver a coesão entre as moléculas da cola da sola e do cabedal, a temperatura mínima deve ser de 60°C no momento da prensagem enquanto as moléculas da cola ainda estão pastosas e se interpenetram. Mas se o apontador da sola demora 20 segundos para apontar a sola, esta deve sair da estufa com no mínimo 80°C para haver a temperatura mínima exigida durante a prensagem. Alguém se deu o trabalho de observar a obediência a esta Lei? E o termômetro digital – quantas fábricas o possuem?
O tempo da prensagem é outro fator freqüentemente descuidado. Para as moléculas da cola se estabilizarem, o tempo necessário é de 10 segundos entre o travamento e abertura da prensa. Para maior segurança, doze segundos é melhor. Controlar é essencial. Confiar no temporizador é uma temeridade.
Nos últimos anos se espalhou o uso de “geladeiras” para o esfriamento rápido do calçado após a passagem pela estufa. O uso da geladeira é inócuo, porque não adiciona nada para uma colagem melhor. Pelo contrário, se após a retirada da forma, o interior do calçado permanecer aquecido, retirar a forma antes que a cola se solidifique é prejudicial. Mais vale colocar o calçado sobre uma carreta e deixá-lo esfriar naturalmente até a temperatura ambiente, o que pode levar no máximo uns vinte e cinco minutos, mas teremos a certeza que a cola ficou sólida, pressionada pela forma na posição adequada.
Um dos fatores muito importantes é a observação de umidade relativa do ar. Durante os testes na Pestalozzi em Franca, medíamos temperatura e a umidade relativa do ar 3 vezes ao dia. Havia dias chuvosos, quando a umidade relativa do ar atingia 97 % ! Em outras palavras, o ar era água pura. Aonde irão evaporar os solventes se o ar já está saturado de umidade? É necessário observar com ajuda de um higrômetro a umidade relativa do ar e quando esta atinge mais de 75 % é aconselhável passar o calçado pela estufa duas vezes, para ter a certeza de que foi eliminado qualquer vestígio de solventes ou d’água.
Neste ponto também é bom avisar sobre a importância de uma aplicação de cola na proporção ideal para cobrir a superfície a ser colada, mas sem excesso. Quando a cola é aplicada em excesso, durante a secagem se cria uma crosta debaixo da qual permanecem os solventes em estado líquido. Se forem prensados nesta condição, aos poucos vão destruir a colagem pela sua ação corrosiva.
A colagem, pela aplicação da cola, secagem, reativação e prensagem pode parecer um assunto simples de ser dominado, mas o número de reclamações e de problemas demonstra que não é bem assim. Sapataria nos dias de hoje virou engenharia de precisão e, ai de quem não se conscientizar disso!
Zdenek Pracuch