CONFORTO SÓ NÃO BASTA

A indústria de calçados evolui em ciclos. O ciclo da qualidade já foi dominado pela absoluta maioria das indústrias tanto aqui, como até na China, a qual no passado era sinônimo de produtos de baixo preço mas, também, de baixa qualidade. Isso era no passado. Hoje a consciência de qualidade domina o mundo e, as montadoras de automóveis, por exemplo, com produto altamente sofisticado oferecem garantia de até cinco anos.

Agora estamos em pleno ciclo de conforto, com muitas indústrias já superando este ciclo e entrando para o ciclo da saúde dos pés. O conforto em si pode ser avaliado por muitas facetas. Temos, e é só no Brasil, inclusive, um certificado que diz que o calçado é confortável. Isto é altamente questionável, porque somente 65 % dos compradores de calçados têm os pés que se encaixam com relativo conforto nas formas do calçado produzido industrialmente. Disse, com relativo conforto.

Porque como avaliar o calce de um calçado, sabendo que o pé no decorrer do dia pode crescer até em 5% em volume, dadas as condições de trabalho, da temperatura ou de  material de que o calçado foi confeccionado. Não basta dizer que é de couro. Qual foi o tipo de acabamento do couro para forro ou para cabedal? Tipo moderno? Com base nos polímeros com top do acabamento? Com este procedimento, o couro perdeu as características naturais quanto à absorção de umidade e virou um produto sintético. Ou, no caso do calçado confeccionado com o produto sintético não foi aplicado o design que permitisse uma ventilação adequada para eliminar a umidade e fez o calçado virar sinônimo de microondas cozinhando o pé no próprio suco.

Por isso digo, apregoar o conforto só, não basta. O conforto que não for acompanhado dos requisitos necessários à saúde dos pés, não é completo. É óbvio que sandálias tipo “havaiana”, ou rasteirinhas nunca vão apregoar que o conforto é o seu forte. A impressão de se andar descalço é quase real.

Pouca gente sabe que, depois da palma da mão, a planta do pé tem o maior número de glândulas sudoríparas. Os números são de 373 e 366, por centímetro quadrado respectivamente! Na planta do pé do homem, que calça tamanho quarenta, isto representa aproximadamente 79.100 glândulas – por pé! Num coturno fechado de um soldado patrulhando oito horas por dia, sobre asfalto quente, isto pode representar 200 ml de suor em cada pé.

O conforto oferecido com um bom calce anatômico da forma, deve ser completado com uso de materiais, favoráveis à saúde e ao bem estar dos pés. As criancinhas pequenas, sem o saber nos indicam o grau de conforto que sentem, quando na primeira oportunidade se livram do sapato. A criança que não tira o calçado espontaneamente, está sinalizando que está se sentindo muito bem, como se estivesse descalça.

Os materiais orgânicos usados no cabedal, como a lona de algodão no tênis vulcanizado, ou no forro do calçado fechado, couro acabado com materiais orgânicos,  tanto no forro como no cabedal, solas de couro e, que saudade, as palmilhas de couro, todos estes materiais contribuem para o prazer de calçar bem e ter os pés saudáveis, com reflexos sobre o  bem estar do corpo, dia inteiro.

Estamos começando a nos conscientizar deste problema. Quem sabe, a praga dos importados, pelo menos em parte, poderá ser anulada com a produção de calçado de maior valor agregado, que não oferecerá somente o calce confortável (com ou sem certificado), mas também, proporcionará o bem estar aliado à saúde dos pés. A escolha de materiais orgânicos forçará os fornecedores à procura e à produção dentro dos novos ditames da ecologia e de sustentabilidade. O que, definitivamente, não convêm aos polímeros.

Ficará tão somente a tarefa de alertar os compradores sobre a vantagem que representa o diferencial entre um calçado feito de maneira desrespeitosa à exigência de um bom calce e um calçado que observa a saúde dos pés, junto com conforto, em primeiro lugar.

Zdenek Pracuch
12/09/11