CONSULTORIAS
Nos meios aeronáuticos existe uma definição sobre os helicópteros. Há os de dois tipos: aqueles que já caíram e aqueles que ainda não. Sobre as consultorias poderíamos dizer também que as há que já foram dispensadas e aquelas que ainda não. Uma consultoria eficiente é aquela que traz conhecimentos novos, métodos de trabalho novos, uma analise de mercado sob novos aspectos, ajuda no desenvolvimento de produtos novos e assim por diante, tendo sempre em vista aperfeiçoar e atualizar a empresa, objeto do trabalho da consultoria.
Acompanho, de longe, o trabalho de consultoria exercido pela cúpula demitida de uma importante fábrica de calçados de segurança, numa outra e também importante fábrica de calçados de segurança. O que estes “consultores” podem acrescentar aos métodos de trabalho nesta fábrica se não conseguiram implantar nada na empresa anterior?
Participei recentemente de um episódio, numa outra empresa, que não atravessa uma fase fácil e para resolver as dificuldades financeiras, trouxe de São Paulo uma equipe de consultoria para melhorar sua situação economica. Os consultores começaram pela velha receita, ou seja, diminuir a folha de pagamento. É até compreensível, porque nunca antes pisaram numa empresa calçadista e ainda não sabem que raramente o custo de mão-de-obra ultrapassa 15 % do preço do calçado. O que obviamente não resolverá o problema financeiro da empresa Não vamos discutir mérito desta filosofia ou técnica de gestão.
Mas, é preciso dizer, que esta empresa enfrentava há uns anos atrás triste problema com a colagem de solas. Despachava dez pares, voltavam onze, descolados. Foi admitido um químico, com currículo invejável, que dentro de pouco tempo resolveu o problema, introduziu controles de todos os materiais e de processos, enfim, o problema acabou.
O salário dele, que não era essas coisas, mesmo assim chamou a atenção dos consultores e este homem foi colocado na lista dos dispensáveis. Acompanhei esta firma durante sete anos, acompanhei o progresso, o crescimento em qualidade de produto, no reconhecimento deste fato pelo mercado e senti uma revolta muito grande pelo retrocesso que este fato trará, com certeza, para a empresa.
Tirei consequência deste fato e comuniquei o meu desligamento com argumentação para usar os meus honorários para cobrir o salário do químico e, assim, evitar a demissão dele. Não adiantou. O homem está na rua. – Este é um exemplo de uma consultoria desastrosa, que desta maneira não resolverá os problemas financeiros, mas com absoluta certeza, num futuro muito próximo irá agravá-los pelas reclamações e devoluções que, certamente, serão a consequência deste ato impensado.
Nas historias em quadrinhos americanas existe, há anos, um personagem chamado Dilbert, cujas tiradas com respeito às consultorias, entre outras, além de engraçadas, infelizmente, são verdadeiras. Diz o Dilbert que com a entrada dos consultores numa empresa há grande tristeza e choro nas florestas, pelas resmas de papel que serão gastas com tabelas, gráficos e estatísticas inúteis, mas que servirão de prova de como os consultores analisaram a empresa em profundidade. Embora não possam mudar uma vírgula do acontecido no passado. Mas que impressiona, impressiona.
Os consultores velhos, os sobreviventes na profissão, usam um pequeno truque, mas que funciona. Perguntam, como quem não quer nada, aos empregados o que eles mudariam, caso tivessem autoridade para isso. Revestem depois estas ideias, num linguajar “consultês”, apresentam ao dono da empresa, que fica maravilhado com as novas ideias, sem perceber, que já foram apresentadas várias vezes pelos “santos de casa”.
Ainda estou para encontrar um consultor que tenha honestidade suficiente, para confessar, que não conhece a solução para o problema ou, que a empresa está muito bem e dificilmente poderia melhorar de forma significativa, tanto em produtividade, como em lucratividade. Reconheço, que dado o obsoletismo que reina no nosso ramo industrial esta situação dificilmente ocorrerá, mas uma ou outra empresa poder-se-ia enquadrar nesta situação.
Vamos ver mais algumas pérolas do Dilbert?
– Consultores tem credibilidade, porque não são tontos ao ponto de serem seus empregados.
– Consultores eventualmente saem, o que os torna fáceis vitimas de responsabilidade por maiores besteiras cometidas pela gerencia.
- Consultores trabalham longas horas, principalmente aqueles cujo contrato está por hora de trabalho, o que faz os empregados regulares se sentirem mal e culpados, com as sessenta horas de trabalho deles por semana.
– Ainda está por nascer um consultor, que terá coragem de dizer, que a maior fonte de problemas na sua empresa é Você!
Euvaldo Lodi que era consultor das maiores empresas brasileiras, com uma bagagem mais que respeitável de experiência, disse uma vez, que a chegada de uma equipe de consultores, hoje em dia, lembra a chegada de um ónibus escolar. Tenhamos paciência, os jovens também ganharão experiência um dia. – Se ainda existir indústria de calçados digna deste nome.
Zdenek Pracuch
07/11/11