CONTABILIDADE DE RESULTADOS

Não me surpreendo mais, quando a minha pergunta sobre qual foi o resultado da empresa no mês (semestre) passado recebo como resposta a indagação: “Como é que vou saber?” ou “Dá para saber, sem fazer balanço?” ou simplesmente, na maioria dos casos “Não sei.” Fico a imaginar como está a gestão da empresa, presumivelmente com fins lucrativos. Se estivesse falando com um provedor da Santa Casa, tudo bem, mas com empresário de uma empresa viva, atuando no mercado? Francamente.

O nome Contabilidade de Resultados foi dado pelo saudoso Peter Drucker. Antes disso foi chamada por diversos nomes, os mais freqüentes eram os de “contabilidade de custos” ou “contabilidade industrial” e sob este nome introduzi este sistema contábil no início dos anos sessenta na Calçados Saméllo. Era uma versão simplificada da contabilidade usada nas organizações Bata, mas os resultados de cada um dos centros de custos e fechamentos semanais, essenciais para uma boa gestão, foram conservados.

Não tínhamos computadores nem calculadoras eletrônicas. Era feito tudo na raça e coragem. Centros de custos abrangiam não somente os departamentos de produção como corte, pesponto, montagem, cartonagem ou almoxarifados, mas também manutenção, ambulatório, administração etc. e mais cada loja própria, em separado.

Era um trabalho de perfeita coordenação e de responsabilidade dos dois contadores na época João Perente, já falecido e Eduardo Belotti, que mais tarde exerceu função de diretoria no grupo Amazonas. - A partir da terça-feira juntávamos toda documentação, para no sábado (sim senhor, trabalhávamos no sábado até o meio-dia) apresentar os resultados na reunião de diretoria. A documentação não era tão volumosa, mas era feito tudo á mão, com as calculadoras mecânicas, a manivela, que a nova geração desconhece por completo.

E a ansiedade para conhecer os resultados era tanta, que a gente tinha que enxotar o Wilson Sábio de Mello, que a partir de 5ª-feira começava rodear as nossas mesas, como quem não quer nada. “Wilson, por favor, deixa a gente trabalhar!” “Sim, sim, eu só queria saber como está saindo a semana!” – Esta ansiedade era compreensível num dirigente cônscio das dificuldades de uma empresa em crescimento e que entendeu perfeitamente a importância do acompanhamento dos resultados.

Com sua inteligência privilegiada, ele entendeu a importância do conhecimento imediato dos resultados das atividades para a tomada das ações corretivas. Nossos contadores, em geral não foram treinados para tanto, como os contadores de uma multinacional igual a Bata, que acumulou conhecimentos práticos no mundo inteiro, obra das melhores cabeças nas áreas de interesse.

Quando um contador faz o levantamento dos resultados normalmente leva em conta as contas a pagar, contas a receber, realizável, disponível e no fim, com algum grau de incerteza apresenta o resultado com uma porção de ressalvas. A contabilidade de resultados é diferente. Parte do princípio que a vida da empresa é dividida entre parte econômica que mostra o desempenho e a parte financeira que, embora intrinsecamente entrelaçadas, são duas grandezas diferentes e como tais devem ser analisadas.

Exemplo? Posso estar no cheque especial empresarial atolado até o pescoço, mas se minha empresa é lucrativa o meu aperto mais cedo ou mais tarde acabará. Mas se a minha empresa na parte econômica não apresenta lucros, mais cedo ou mais tarde o meu capital desaparecerá, e agora?

Nunca posso esquecer o espanto de um empresário de Nova Serrana, onde há dois anos atrás introduzi a contabilidade de resultados e junto com uma recém saída da faculdade de administração verificamos que em quatro meses a firma faturou milhões e o lucro se resumiu a R$ 17.000,00 (dezessete mil reais)! Bastava alguém não pagar uma duplicata de vinte mil e a firma entraria no vermelho, trabalhando quatro meses de graça.

Me explique isso – o empresário meio nervoso me solicitou. Retruquei, que não tenho nada a explicar – ele que me explique como está administrando a empresa dele produzindo prejuízo. Bem, isso foi em maio, em outubro já produzia lucro de 13,5 % sobre o faturamento. Mas o susto valeu.

E aí novamente volto ao meu tema predileto: gente, como vamos competir na área global com este tipo de gerenciamento? 

Zdenek Pracuch