CRÉDITO SEM LIMITES - ATÉ QUANDO?

O jornal O Estado de S. Paulo, de 13.4.2008 trouxe interessantes dados sobre o crescente endividamento da
população por causa do crédito fácil e abundante. São dados
interessantes mas ao mesmo tempo preocupantes.

De novembro 2004 até novembro 2007 a massa salarial obteve
um crescimento de 21 %. Ao mesmo tempo o volume de empréstimos com a inflação já descontada, aumentou 85 %. Em
números exatos isto representa que cada brasileiro precisava
trabalhar 5,9 meses em 2004. para pagar os empréstimos. No
fim de 2007 este comprometimento para pagamento dos
empréstimos já atingiu preocupantes 9,5 meses.

Como nada indica que o nível do endividamento já foi atingido, antes pelo contrário, tudo indica que esta massa crescerá mais ainda, dentro de pouco tempo o homem do povo precisará trabalhar um ano para pagar as dívidas. Pagar as dívidas e ao mesmo tempo manter a família e as despesas correntes? Quadro nada animador.

O acesso das classes de renda C, D e E aos cartões de crédito em parte explica o recorde de todos os tempos de taxa de inadimplência de 6,5 % assinalada em fevereiro deste ano. O estudo do FMI em seu Relatório de Estabilidade Financeira Global divulgado há quinze dias atrás indicou o crescimento do crédito de setor privado em 28,5 %. O motivo da preocupação não é a proporção entre crédito e PIB que é de 34,9 % mas o ritmo de expansão dos financiamentos. Aumentos acima de 20% foram assinalados como “possíveis fontes de problemas”.

E o que tem a ver isso com a indústria de calçados? Tem a ver e muito. As dificuldades hoje existentes entre as quais podemos enumerar a taxa desfavorável do câmbio, conseqüente perda de mercados importadores, a crescente pressão de importados em todas as categorias e a descapitalização do varejista, hoje já estão criando situações anormais.

Temos hoje empresas que concedem crédito de venda até 180
dias. Soube até de prazos maiores, que não quero acreditar que existam. Mas de qualquer modo com a anormalidade da situação de crédito, como é que o varejista vai enfrentar a inadimplência da clientela? Que virá, com toda certeza.

Como o varejista vai honrar os seus compromissos, por mais bem intencionado que esteja?

Será que o industrial está preparado ou está se preparando, ou já tem uma estratégia de ação para esta situação que forçosamente ocorrerá? Ou vai se fingir de morto e esperar que “alguém” em “algum lugar” (leia-se governo) irá agir por ele, no lugar dele?

Em tempo algum a coleta de informações comerciais, confiáveis, foi tão necessária como está se tornando hoje. A própria estrutura do mercado está mudando e em vez de manter grandes estoques nas lojas, os estoques serão mantidos dentro das fábricas e a reposição, praticamente imediata, será a característica de atendimento. Com a vantagem de assim criar uma clientela fiel, que saberá apreciar um sistema que ajuda evitar a criação de “pontas de estoque” e um giro rápido da mercadoria.

Para as fábricas isto trará a mudança para pedidos menores e com isso, não tão arriscados, mas mais freqüentes. - Por sua vez, manter a produção antecipada às vendas requererá uma
lição de casa muito bem feita e a pesquisa do mercado e a
coleta de informações sobre tendências será primordial.

Quem tiver um corpo de vendedores próprios que deverão manter visitação freqüente aos lojistas terá a vantagem em oferecer uma reposição melhor, embora esta pode ser atendida pelo e-mail ou fax. Mas visitas do vendedor podem fazer parte da estratégia da coleta de informações e de pesquisa do mercado.

A atual euforia do comércio se reflete no ânimo das indústrias em planos de um crescimento mais acelerado, em investimentos mais arrojados, o que é louvável. Mas, mantenhamos a postura fria de observadores objetivos que analisam todos os aspectos. Como dizem os americanos “with a grain of salt” – com um grão do sal, com calma.

Terceiro milênio nos traz muitas novidades, situações para as quais não temos precedentes para nos orientar e “nunca antes neste pais” a cautela com a prudência era tão necessária. Além de problemas, acima apontados não podemos esquecer, que estamos inseridos no contexto da economia global. Resumindo: aumentemos a cautela e trabalhemos mais e melhor.

Zdenek Pracuch