PODE SE ESCAPAR DA CRISE ?

Sim. Pode. Estou falando sobre a indústria de calçados. – Precisamos analisar bem de que crise estamos falando. Falamos sobre a crise cíclica, que se abate periodicamente sobre a indústria e contra qual as mentes dos empresários já estão vacinados, embora os sintomas são sempre desconfortáveis? Ou falamos sobre a crise estrutural, na qual estamos entrando, ou melhor a qual já estamos vivendo, a crise causada pela invasão dos importados.

Escrevi numerosas vezes sobre esta ameaça. Parece que preguei no deserto, mas a crise está aqui. Ninguém a levava muito a sério e muita gente achava que se tratava de alarmismo barato. Infelizmente, não era bem assim. Crise está aqui, já temos demissões preocupantes e fechamento das fábricas mais fracas ou mal preparadas para resistir.

Venho ensinando, que há três maneiras de, se não ganhar a batalha, pelo menos atenuar os efeitos prejudiciais, a saber:
1 - ter um produto de qualidade absolutamente inatacável,
2 - o preço de venda convidativo, enxuto de todos os desperdícios e exageros das “gordurinhas”,
3 - e possuir um serviço de atendimento perfeito.

Aos três pontos acima podemos ainda acrescentar um ponto original, que até hoje pouquíssimas empresas do ramo calçadista aplicaram, mas para aquelas que o aplicam, os resultados oferecem uma posição privilegiada no mercado, além de uma segurança e estabilidade econômica invejável. Como exemplo citarei três empresas diferentes pelo tamanho e pelos artigos produzidos. A primeira é uma empresa grande. Outra é uma empresa média e a terceira é uma empresa pequena.

O que as une é o pioneirismo e coragem de investir em produtos diferenciados e competir em mercados pouco explorados, garantindo para si uma posição no mercado absolutamente inatacável. O que fizeram? Trilharam caminhos diferentes, sem olhar oara os lados, perguntando: Alguém já fez? Será que dá certo?

A menor das empresas produz botas e calçado esportivo para os esportes radicais. Para o Brasil e para o mundo. A marca já é símbolo de qualidade e de especialidade. Os aficionados a conhecem e prestigiam.

A empresa média criou um modelo de calçado de construção especial de um conforto incomparável, principalmente aos portadores de pés sensíveis, como os diabéticos. O sucesso é tamanho que o calçado é exportado – para a Ásia !!

E a empresa grande, como era de se esperar investiu no desenvolvimento de um calçado de segurança, de tecnologia super-avançada. Imaginem uma bota de couro e sola de borracha que pode resistir ás temperaturas de até 1.400 °C! Esta empresa concorre com sucesso com duas outras únicas concorrentes no mundo, uma da Austrália e outra dos USA.

Ou seja, combater a crise exige inventividade, criatividade e coragem em investir, principalmente em novas idéias. Pelo noticiário do jornal O Estado de São Paulo, de 12 de junho, sabemos que o Ipea acaba de concluir o maior estudo já realizado sobre o nível tecnológico da indústria, no qual constatou, que APENAS 1,7 % das empresas inova e diferencia seus produtos. É muito, mas muito pouco, de um universo de 72 mil empresas com mais de 10 empregados. Mas este 1,7 % é responsável por 26% do faturamento total das indústrias e emprega 13 % da força do trabalho.

São estas as indústrias que produzem bens de maior valor agregado, que chegam a alcançar o preço 30 % superior ao das que não investem em modernização e em diferenciação. Porque não poderiam servir de exemplo ás demais?

Há uma frase na literatura dos pára-choques de caminhões que diz : Não fale em crise, trabalhe! Podemos, talvez, modernizá-la para: Não fale em crise – crie e invente!

Zdenek Pracuch