A CRISE OUTRA VEZ ?
A indústria de calçados brasileira aparentemente sofre do transtorno bipolar, agora tão em moda, tão falado. A indústria passa de períodos de uma euforia sem limites para uma depressão, também, aparentemente sem limites.
No momento estamos entrando na fase depressiva. Interessante foi ler a entrevista concedida pelo presidente da Abicalçados, senhor Milton Cardoso, concedida ao jornal O Exclusivo, por ocasião da apresentação do Relatório Setorial da Indústria de Calçados do Brasil, elaborado pelo Instituto de Estudos e de Marketing Industrial (IEMI).
O tom da entrevista foi o de apreensão e de alerta para que o setor não entre em uma nova crise. Bem, queiramos ou não, a crise já está aqui entre nos. Curiosamente, Franca ainda está entre os núcleos calçadistas que menos sentiram a retração do mercado. Comparada a situação, por exemplo, de Nova Serrana, até que Franca vive um período de relativa prosperidade.
O único ponto onde podemos discordar da análise feita pelo senhor Milton Cardoso, é no tocante da importância que ele atribui ao aparecimento da crise pelo fator do câmbio desfavorável e da ineficiência das medidas anti-dumping tomadas pelo Governo. Quanto ao câmbio, nada a comentar, porque com os juros mais altos do mundo, o Brasil se tornou a terra prometida dos especuladores, do hot-money internacional, que inundam o mercado de câmbio com seu capital especulativo e aumentam artificialmente a valorização do real.
As medidas anti-dumping que o governo tomou, foram condenadas desde o primeiro dia ao fracasso por dois motivos. O primeiro pela triangulação das importações, prática tão comum no comércio internacional, principalmente de armas, que a ingenuidade da medida foi a única coisa que poderia causar estranheza. O segundo motivo é a falta de uma fiscalização eficiente nos portos de entrada, onde somente três por cento dos containers são conferidos pela Receita Federal. Noventa e sete por cento passam pelo Canal Verde. O resultado é óbvio.
Senhor Milton Cardoso estranha a morosidade do governo no processamento do pedido da extensão do anti-dumping aos paises que ajudam na triangulação. Nas palavras dele “Entramos com pedido oficial em janeiro e o prazo estipulado é de três meses, porém não obtivemos nenhuma resposta. E o pior é que ficamos sabendo que todos os processos desta natureza estão parados. Ou seja, não é um problema específico do nosso pedido. Só o que queremos é que seja cumprida a lei no Brasil, que não permite a prática do dumping, mesmo que por intermédio da triangulação.”
Mas, o senhor Milton Cardoso deveria levar em conta que hoje a China é o parceiro número um no comércio exterior do Brasil. E que a China já deu sinais de não gostar da discriminação contra os seus produtos. E como observou o jornal britânico Financial Times “... há sinais crescentes de que a lua de mel acabou. Seria muito difícil encontrar duas grandes nações no mundo moderno que sejam, política e culturalmente tão diferentes quanto a China e Brasil.”
Aliás, os magros resultados que Sua Excelência a Presidente da República trouxe da sua viagem da China, se é que houve alguns resultados práticos, somente confirmam o acerto da observação do FT.
Na análise do presidente da Abicalçados houve mais algumas falhas de raciocínio. O fundador da Calçados Azaléia, o saudoso Nestor de Paula, homem de grande visão e estrategista admirável, iniciou o deslocamento do ocidente para oriente, quando abriu a unidade produtora da Azaléia na China. O câncer que o levou não permitiu que levasse até o fim a idéia dele.
Mas a Vulcabrás/Azaléia continua esta expansão. Ou seja, concorda, que a indústria brasileira de calçados está perdendo a competitividade contra os orientais. E toma medidas preventivas, como a de deslocar a parte de produção para China e Índia. Mas não é só este fato que contribui para o estabelecimento da nova crise no mercado.
Embora a euforia oficial ainda tome conta da população, convidando o povo a gastar mais do que ganha, com crédito (ainda) fácil e abundante, os primeiros sinais do endividamento excessivo e da inadimplência já começam a ser sentidos pelo comércio varejista, o que contribui, naturalmente, para esfriamento dos lojistas na hora de compra. A “bolha” do consumo e de crédito fácil ainda cresce e há de se fazer a pergunta o que irá acontecer quando, parafraseando a crise de 1929, alguém irá pedir um real em dinheiro?
De qualquer modo, independentemente da causa da apreensão, o título da entrevista do senhor Cardoso é significativo e válido : Grito de ALERTA do segmento.
Zdenek Pracuch
11/07/11