O NOME DO PROBLEMA É "CUSTO"
Recebo, frequentemente, e-mails solicitando informação sobre onde é possível adquirir o livro Calculo de Custos, de minha autoria, que consta no meu site, embora com a observação – esgotado. Ainda bem. Confesso que fiquei um pouco convencido, quando nos anos oitenta um importador americano quis providenciar a tradução para inglês e só desistiu, quando provei a ele, que o livro foi escrito para condições reinantes na indústria brasileira de calçados.
Quando em 1998, o guru Peter Drucker publicou o livro Management Challenges for the 21st Century (Desafios da Administraçao para o Século 21),virou de pernas para o ar todas as teorias antigas sobre o cálculo de custo e de formação do preço de venda, achei que, no meu caso, a tarefa de publicar um novo livro sobre o novo sistema de formação de preço já caberia à alguém mais jovem. De acordo com Rudyard Kipling, famoso poeta e escritor, autor do clássico poema Se (If), um homem pode dar como cumprida a sua missão se teve um filho, plantou uma árvore e escreveu um livro.
Mas, voltando à situação atual, a procura pelo livro para aperfeiçoar o sistema de cálculo de consumo e de custo, tem razões muito importantes e merece aplauso. A despeito do oba oba oficial sobre um PIB de 7,5 % (sem nunca mencionar sobre que base foi calculado) e outras mágicas estatísticas dos órgãos governamentais, o empresário já está sentindo uma certa retração da euforia de compras. E a pressão sobre os preços está sendo cada vez mais sentida.
Se a empresa não está entre o grupo privilegiado das produtoras, onde o preço é o último item a ser discutido e a empresa faz parte do “pelotão do meio” onde o único diferencial entre a plêiade de produtos idênticos é o preço, aí todo cuidado é pouco.
Dada a tradicional aversão a novidades aliada ao desconhecimento técnico, do segundo escalão, que atua nas fábricas, torna-se difícil conseguir melhor custo via melhor produtividade e combate aos desperdícios. Os desperdícios começam na seção do corte, onde o material é entregue aos cortadores com abundância injustificada, simplesmente por desconhecimento de como fazer o cálculo de consumo exato.
Estou chegando de uma fábrica, onde para economizar o tempo do desenhista, foi adotado o sistema CAD (Computer Aided Design). Tudo bem. Dono da empresa sabe o que faz. Sabe? O calculista ganha R$ 7,30 por hora. Digamos que necessitaria, no máximo, de 3 horas para desenhar um modelo, ou seja, custará R$ 21,90 caso fizesse o cálculo de consumo manualmente, pelo sistema de paralelogramo. Pelo CAD gastará no máximo 30 minutos, ou seja, R$ 3,65. Realmente a fábrica economizou R$ 18,25 !!! Valeu.
O problema é, que o calculista usa manualmente o método do paralelogramo para cáculo de área, que no dizer do alemão Oswald Besching, autoridade mundial como tecnólogo – é o único sistema exato de apuração da área. Deve ser por isso que a gigantesca Bata Shoe Organization – BSO usa o sistema até hoje. Uma das razões também é que, o investimento para utilizar este método está restrito a folhas de papel e uma lapiseira e pode ser ensinado a qualquer pessoa de mediana inteligência em duas horas! Como me foi dito por um auditor canadense da BSO, quando quis gozá-lo por usar um sistema tão antigo, na era dos computadores.
Nos tempos da Calçados Samello, um dia após discutir com o chefe do corte sobre a quantidade de couro entregue aos cortadores, o então auditor Eugênio “Gênio” Arima fez junto comigo uma experiência com os três sistemas computadorizados que Samello utilizava. Tratavam-se do Lectra, Nexos e Satra. Comparados os resultados com o método do paralelogramo todos - repito todos - apuravam uma área maior que variava de 4,5 a 32 % por modelo! Não vou pichar o pior. Mas imaginem que em cada cem metros quadrados de couro, entregarei no mínimo 4,5 metros quadrados, gratuitamente, para o cortador se divertir com meu capital. E, pior, ainda ser elogiado caso tenha cortado dentro da receita.
É lógico que sobre os valores da área do paralelogramo ainda são acrescidos valores de coeficientes de desperdício que incluem o tamanho das peles, o tipo de couro se for de flor integral, lixado ou estampado, largura dos rolos no caso de sintéticos, tamanho das peças a serem cortadas etc.. E ainda consideraremos o coeficiente exponencial de tamanhos a serem cortados.
Mas nada, nada mesmo, justifica economia na hora de calcular o consumo de materiais, para economizar R$ 18,25 e em seguida jogar fora, nos primeiros cem metros cortados, no mínimo R$ 157,50! Acordem para realidade dos números! Nem é bom imaginar que, tratando-se de um modelo que agradou, poderão ser produzidas dezenas de milhares de pares!
Não será fácil competir com os nossos concorrentes de olhos puxados, que economizam até os grãos de arroz, educados que foram para isto durante centenas de anos de miséria e de fome. – Muitas vezes os desperdícios são difíceis de identificar por pessoal que faz parte do problema. Pelo costume de ver as coisas feitas da mesma maneira constante e habitual, por acomodação ou pior por pura preguiça mental.
A batalha pelos mercados, que está se acirrando cada vez mais e, digo mais uma vez, o ano de 2011 não será um ano fácil para ninguém, nos levará a repensar todos os métodos aplicados e a redução de custos de toda natureza será o enfoque principal. E qual é o item de maior peso na produção de calçados? Matéria prima e insumos, lógico. Então, também é lógico que este deve ser o primeiro alvo de atenção desta batalha e todos os métodos que nos podem conduzir ao resultado mais favorável devem ser aplicados.
Repetir pela enésima vez, que não há mais tempo para perder?
Zdenek Pracuch
04/04/11