É A INDÚSTRIA DEFINHANDO
Este foi o título de uma coluna publicada no Estadão, no domingo 11/03/2012. Outra reportagem afirmava na manchete “Crise da indústria se agrava e assusta.” Bem, nada de novo. Quem acompanha diariamente a vida das empresas sabe deste fato em contato direto com os empresários e dirigentes comerciais. A euforia de consumo alimentado pelos subsídios e crédito fácil, embora já nem tanto, pouco significa para a produção industrial uma vez que boa parte do consumo é coberta pelas importações, dada a valorização excessiva do real.
As medidas tomadas pelo governo e trombeteadas pelo ministro da Fazenda, são inócuas, como comprovam os estoques excessivos nos pátios das montadoras e até nas indústrias de transformação. Não é só fenômeno nacional, nossos males incluem também outros, diferentes. Mas hoje a paradeira industrial é um fenômeno mundial. As vozes autorizadas afirmam, que existem mais de 30 milhões de veículos nos pátios das montadoras pelo mundo!
Meu trabalho me leva para vários clusters calçadistas. Trabalho com várias empresas de todos os ramos de produção de calçados. Desde os calçados para criancinhas até o calçado pesado, de segurança. E em todas as visitas ouço a mesma pergunta angustiosa: como está o mercado? Como estão os outros? Tem pedidos? Você acha que esta queda nas vendas vai continuar? - Naturalmente tenho que manter sigilo profissional e só posso responder em termos gerais, pouco específicos.
Mas estatisticamente observado, todos foram atingidos em grau menor ou maior pelo enfraquecimento do mercado e a conseqüente queda na área de produção. Mas esta situação não é localizada só na indústria de calçados. Ela é geral o setor industrial perde a competitividade. A crise não atingiu o setor de serviços e muito menos a agropecuária. Unicamente porque estes são setores que não sofrem diretamente a competição global. Como podemos ser competitivos na indústria se a carga tributária representa 36% do PIB?
Segundo Guido Mantega o governo reconhece que deve levar adiante a desoneração dos encargos sociais que incham as folhas de pagamento. Mas isto já foi visto e prometido pela presidente Dilma em fevereiro do ano passado! Até quando vai ser adiada a decisão e por qual período valerá? Governo tem tempo de sobra, mas as empresas estão perdendo mercados a cada minuto! E pensando bem, não serão os encargos sociais das folhas que irão fazer tanta diferença!
Energia elétrica, felizmente, não tem grande peso na indústria de calçados, mas serve de exemplo de administração publica. Num País onde 80% de energia é gerada por hidroelétricas a custo irrisório, estamos pagando a quarta energia por quilowatt/hora mais cara do mundo! Bem, todo mundo sabe, que na hora de abastecer o carro, metade do que pagou foi para a boca insaciável do Tesouro. E por aí vai. Vamos ser competitivos quando e onde?
Pelos últimos dados do Banco Central ficamos sabendo que, em fevereiro, as empresas pagaram em média 40,9% ao ano pelo desconto de duplicatas e de 109,1% ao ano para financiamento da conta garantida. – Pelo estudo da consultoria MB Associados ficou demonstrado, que o custo de logística no Brasil é de 20% do PIB, quando nos Estados Unidos é de 10,5% e na Alemanha 13%. Vamos competir como?
Os críticos que dizem que não existe política industrial no Brasil, estão cobertos de razão. Vejamos: o BNDES cuja função primordial é fomento da economia e como conseqüência direta a criação de empregos, em 2002 forneceu à indústria seis vezes mais recursos do que para serviços e comércio. Em 2011 apenas 50% a mais. Será que é essa a política industrial a que o governo se refere?
Todos os fatores acima apontados escapam a intervenção do pequeno e médio empresario. Porque até os grandes estão sofrendo e não é difícil ver na onda de fusões e aquisições a política de “ser tão grande de não poder quebrar”. Nem tão errada, porque foi aplicada com sucesso pela General Motors num passado recente. Funcionou e hoje a GM está outra vez de cabeça erguida depois da ajuda paternal do governo americano.
O que o pequeno e médio empresário da indústria de calçados pode fazer para sobreviver nesta época de transição, de mudanças profundas na estratégia econômica, industrial e de comercialização? Temos exemplos práticos dos países onde, principalmente, a indústria de transformação, como a de calçados já foi atingida. Itália, Alemanha, Espanha e tantos outros. Chamaria esta política de “crescer para dentro”. Ou seja, produzir um produto diferenciado, de alta qualidade, num nicho de mercado estudado, restrito e precisamente definido, ter uma flexibilidade para se adaptar rápidamente às mudanças de moda e de gostos, ter uma organização de vendas agressiva e aproveitar todas as oportunidades para fortalecer, projetar e promover a sua marca. Parece difícil?
Não é. É trabalhoso, exige um bom planejamento, definições precisas, uma coleta de informações atualizadas, mas em primeiro lugar, exige ação positiva. Não tem um ditado que diz que a vida é dura para quem é mole? Mãos à obra moçada!
Zdenek Pracuch
26/03/12