DESINDUSTRIALIZAÇÃO
Uma nova palavra está sendo incorporada ao vocabulário “economês”, com uma freqüência e uma preocupação cada vez maior. O estágio evolutivo, que o Brasil parecia ter alcançado, está sendo ameaçado pela falta de estratégia a longo prazo e pela política canhestra, alimentada pela demagogia de resultados imediatos, em detrimento de um planejamento sério e responsável.
Não falo da indústria de calçados tão somente. A ameaça paira sobre toda a indústria brasileira, tanto de base como de transformação. A política cambial, a gastança governamental que só pode ser alimentada pelo dinheiro emprestado a juro mais alto do mundo, a falta de investimentos na infra-estrutura que torna as exportações brasileiras caras demais pelo ‘custo Brasil”, todos estes elementos que embora façam só uma parte do problema são responsáveis por aquilo o que a médio e longo prazo os economistas chamam de “desindustrialização”.
O Brasil, de uma nação a caminho de uma industrialização iniciada no governo do Juscelino, de repente, está perdendo campo na exportação, virou nação importadora, até de produtos de mão-de-obra intensiva – têxtil, confecções, calçados – e as exportações no dia de hoje são constituídas em noventa por cento de commodities como produtos agrícolas, alimentos processados e minérios, não necessariamente nesta ordem.
E o que a indústria de calçados tem a ver com isso? Diretamente, quase nada. As exportações de calçados, na escala a que estávamos acostumados se foram, para sempre. Mas, o que vai representar a desindustrialização? Em primeiro lugar a perda de empregos. Em segundo lugar a perda de arrecadação. Não havendo arrecadação não haverá investimentos e a pressão pelos benefícios sociais será cada vez maior.
Estas idéias não são minhas. Estas idéias são uma resenha daquilo o que os economistas sérios estão divulgando como um alerta, para que a política econômica seja reconduzida o mais rápido possível à execução de um plano econômico responsável, a médio e longo prazo, mas com vigência de medidas imediatamente.
Na propaganda oficial e nos pronunciamentos do ainda ocupante do palácio do Planalto, tendo encontrado pré-sal (o qual na realidade já fora detectado há trinta anos atrás), todos os problemas seriam solucionados e o Brasil competiria com os Emirados Árabes em riqueza e nível de vida dos seus habitantes. O mundo econômico, o sério, aquele que não vive das verbas do governo ou aquele que não depende do Brasil, pensou de outra maneira. A capitalização da Petrobrás, não pode de maneira alguma ser chamada de sucesso, as ações caíram sensivelmente e não fosse uma manobra bastante discutível (revista Veja de 03.10) do BNDES, poderia ter obrigado a um aumento da gasolina bem bom para financiar a exploração, embora hoje já seja uma das mais caras do mundo. Ainda bem que “o petróleo é nosso!”.
Novamente algum sapateiro pode perguntar: e eu com isso? Com toda razão, observando o imediatismo e desprezando as leis da economia., mas sem perder de vista o modo como a economia está interligada, sem uma vinculação visível a primeira vista. Mas, quantas vezes já vimos este filme: quando a economia em geral vai mal, o que acontece com mercado de calçados? Mercado se retrai. Na década dos anos setenta e dos oitenta ainda tínhamos a exportação em grande volume e o impacto da fraqueza da economia nacional não era sentida tanto assim. A exportação compensava o mercado nacional. Gaúchos que o digam.
Resumindo: o planejamento nunca foi o forte dos empresários calçadistas. Vivia-se de Feira em Feira, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia dos Pais, Semana da Criança e ia se levando. Isto também já esta praticamente acabando e o mercado está começando viver a modernidade e avanços do terceiro milênio.
O planejamento está se tornando uma imperiosa necessidade vital. Num cenário econômico tanto nacional como global, ter um plano para próximo ano, para próximo qüinqüênio para saber se vale a pena investir, investir em que, se vale a pena aumentar a produção é essencial para a sobrevivência. Seria, talvez, melhor investir na mais valia do produto, naquilo o que se convencionou de chamar “maior valor agregado”? E uma outra infinidade de aspectos, que bem planejados e executados possam garantir a sobrevivência de uma empresa ou, quem sabe, de um ramo industrial na sua totalidade.
Sei que é uma tarefa difícil para quem nunca se preocupou com isso. Há uma necessidade grande de coleta e principalmente da interpretação de informações. Não é tarefa fácil, mas a vida ensina que, tudo o que vale a pena, geralmente é custoso.
Há mais uma consideração a ser feita e que não é muito observada. A consideração se refere ao compromisso social que cada empresário tem com a sociedade que o ajudou a crescer e acredito também, que o ajudou a enriquecer. A responsabilidade social com aquele exêrcito de funcionários e de seus dependentes, que estão sacrificando os melhores anos da vida deles, em prol do sucesso das empresas e para quem nunca deveria ser dito simplesmente: “não deu certo,vão para casa, vou fechar!”
Todas estas considerações estão fazendo parte do significado profundo do neologismo – a desindustrialização.
Zdenek Pracuch
06/12/10