MUDANÇAS QUE DESNORTEIAM.

Durante a FENAFIC ouvi de um amigo empresário um desabafo que ilustra bem o estado mental dos nossos empresários: Será que estou ficando velho demais para tudo o que está acontecendo em torno de mim? Será que o mundo está girando mais depressa? Parece que tudo o que estou fazendo ou pensando está errado!

Ouvi com grande compreensão e simpatia. O meu velho amigo não estava errado. Ele só não soube distinguir as causas dos efeitos. O mundo não gira mais depressa. O mundo se comunica mais depressa. As distâncias e, conseqüentemente, o tempo encurtou. O que acontece do outro lado do mundo, em questão de segundos vira notícia no mundo inteiro.

E isso não é só na política, guerras ou desastres. O mesmo princípio vale também para a tecnologia, moda, cotações de materiais, tendências e crises econômicas ou cotações de moedas. A única certeza no mundo de hoje é a certeza da incerteza!

É de se estranhar que a pessoa que viveu a vida toda num mundo ordenado, previsível à prova de sustos, se sente desorientada, perdida? E quando ainda é responsável pela empresa e pela sobrevivência de umas tantas famílias que dependem desta empresa, com o peso desta responsabilidade, é lógico que pode entrar em pânico e não enxergar soluções.

No caso do empresariado de calçados, seja ele do Sul, de Franca, de Jaú ou de Nova Serrana, pesa contra todos eles ainda o peso da acomodação, esta criada por anos de uma vida relativamente fácil. O mercado estava aberto, competição pequena, duas coleções por ano, inflação ajudando a vender – como era fácil ser empresário!

Hoje em dia com a pressão dos importados, competição violenta no mercado interno, para onde voltaram as empresas que perderam mercado externo e a clientela cada vez mais exigente, a sobrevivência se torna cada vez mais difícil. Hoje não se pode improvisar. Chegou a hora da verdade. Ou se é empresário ou não se é.

Fico observando sem acreditar, por quanto tempo ainda os empresários vão teimar em produzir calçado, nesta nova situação com tecnologia dos anos cinqüenta e com métodos de gestão ainda mais antigos!

O medo de sair das rotinas, aliado ao despreparo, irá apressar o declínio da indústria de calçados, tal como está hoje. Pouca gente, até agora, identificou a tendência dos clientes que exigem cada vez mais por menor preço. Mas este cada vez mais se resume a qualidade, originalidade e serviço, por menor preço não quer dizer baratear o artigo usando materiais inferiores.

A tecnologia de produção, principalmente no calçado de homem data dos anos cinqüenta e não mudou para melhor. Dado o progresso geral, podemos dizer, que regrediu. Quem vai pagar o custo deste atraso? Os clientes? Enchemos as fábricas de terminais de computadores. O que aconteceu? Os programadores que não entendem patavina da indústria de calçados, transformaram em programas a ineficiência da gestão. E hoje temos a ineficiência informatizada.

Quem vai pagar por isso? Os clientes?

O resultado desta miopia generalizada é, que a indústria de calçados está ficando a cada dia que passa, menos competitiva e mais vulnerável ao ataque dos concorrentes melhor preparados e mais ativos. – Diz o provérbio que o pior deficiente visual (formulação politicamente correta) é aquele que não quer ver. Será que isso se aplica aos dirigentes na indústria de calçados? Vale a pena repetir mais uma vez: como Você espera estar aqui amanhã, se hoje trabalha com os métodos de ontem?

Zdenek Pracuch