DISCIPLiNA

Assisti alguns dias atrás a uma crônica do Alexandre Garcia sobre a disciplina. A conclusão dele é que a disciplina não é o forte do caráter brasileiro. A alma nacional, talvez reflexo dos tempos da escravidão ou da subjugação dos nativos pelos colonizadores, não gosta de se sentir subordinada à qualquer autoridade que considera um tipo de opressão e, errôneamente, interpreta o exercício da disciplina como um ato de violência contra a individualidade.

Os estrangeiros em passagem pelo Brasil (não os residentes, que se adaptam logo aos hábitos mais relaxados locais!) ficam pasmados com um desrespeito tranqüilo aos sinais de trânsito, da velocidade máxima, do estacionamento ou parada proibidos etc.. Nunca passaria pela cabeça de um alemão, sueco ou inglês invadir a faixa de pedestres ou desrespeitar o sinal PARE. Ultimamente, pelo menos, o “É proibido fumar” devido ao rigor da legislação é observado com algum respeito. Mas a “Entrada proibida” é confundida largamente com o convite para entrar.

A vida e hábitos dentro das empresas são espelhos da vida além das cercas da empresa. O comportamento das pessoas não muda pelo simples fato de o cidadão ter passado pela portaria da empresa. A indisciplina cívica se reflete na execução das tarefas diárias e rotineiras.

Como parte dos meus trabalhos dentro das empresas estão, por exemplo, estabelecimento de controles  de desperdícios, de produtividade, de resultados econômicos, do capital de giro, acompanhamento de controle de qualidade, de re-trabalho, de análise dos motivos de devoluções e uma infinidade de outros itens administrativos e de produção. – É óbvio, que estas atividades geram relatórios, que deveriam ser atentamente acompanhados para aferir melhorias ou declínio no desempenho.

Logo após a introdução, tudo funciona a contento. Os relatórios são confeccionados, analisados e a ação corretiva, se necessária, é tomada. – Reina satisfação geral. Só, que passados um ou dois meses, o relatório começa atrasar, por um motivo ou outro (e sempre é um motivo taxado de sério), o relatório deixa de ser apresentado e no máximo em três meses volta tudo ao que era antes, ou seja, inércia geral.

Quando me acontece voltar, após três ou quatro anos para a mesma empresa, ouço observações das pessoas: “É sim, eu me lembro, nos já fazíamos isso e dava certo, mas não sei porque, depois paramos com isso!” - Quando o dono da empresa se queixa sobre este fato, não uso meias palavras: “A culpa é exclusivamente sua! Porque deixou atrasar e ficou por isso mesmo? Por que não cobrou com rigor? Como quer exigir disciplina dos outros se Você não dá o exemplo?

Conseguir comportamento disciplinado não tem segredo: é só estabelecer regras claras e controlar a execução. Tolerância zero. Desta maneira o ex-prefeito Robert Giuliani disciplinou New York – estacionamento proibido é proibido e basta! Ponta de cigarro no chão é multa e basta! Em Singapura um chiclete cuspido no chão pode até dar cadeia. Os nova-iorquinos ou malaios são gente como nos. Porque uma disciplina rigorosa não poderia funcionar aqui?

Um dirigente de empresa indisciplinado – não cumpre horário de compromissos combinados, não retorna chamadas prometidas, esquece-se de pagamentos prometidos, faz vista grossa para cumprimento relaxado dos horários por parte dos funcionários, aceita desculpas descabidas pela não execução de tarefas nos prazos estabelecidos etc. – não tem moral para cobrar disciplina. O exemplo tem que partir de cima e, como diz um provérbio holandês, o peixe começa cheirar mal pela cabeça.

Quem já trabalhou numa multinacional japonesa, alemã ou escandinava conhece o diferencial comparativo com as empresas nativas. Fica a pergunta: porque elas conseguem esta atuação disciplinada no meio brasileiro e nos não conseguimos? Segundo Alexandre Garcia a causa deve ser procurada na educação. Deste jeito, se ele estiver com a razão, com a educação tanto familiar como escolar que campeia por aí, estamos perdidos.

Zdenek Pracuch