O DRAGÃO ESTÁ BEM ACORDADO
Não bastassem as estatísticas sobre o ano passado, referente às exportações e importações na área de calçados, vem agora no boletim publicado pela Abicalçados, com números sobre o mês de Abril de 2011. Em comparação com o mês de Abril de 2010, houve um aumento de 47,2 % na importação e uma queda de 31,9 % na exportação de calçados e de componentes.
Em 2010 as exportações de calçados registraram uma queda de 47,3 % e as importações aumentaram em 37,3 %. Traduzido em realidade isto significa, que aqueles que não conseguiram exportar e quiseram manter o nível da produção, agravaram em 47,3 % a pressão sobre o mercado nacional. Somando se a isso os 37,3 % do aumento de importações podemos entender, porque, de uma hora para outra começamos a ouvir queixas, de que não é mais tão fácil vender, como o era no ano passado.
Para coroar as más notícias, o dólar vem atingindo cotações cada vez menores. Isso quer dizer menos exportações e ainda mais importações! Não há saída deste labirinto criado pelas políticas oficiais sem uma definição clara daquilo o que o Brasil quer, ou melhor, do que o Brasil precisa. Estamos assistindo a uma silenciosa desindustrialização. Um substantivo tão novo, que nem consta dos últimos dicionários.
Também pudera. O Brasil paga os maiores juros do mundo e oferece uma estabilidade econômica que encanta os investidores. Em outras palavras o tsunami dos dólares não vai acabar tão cedo, porque há excesso de liquidez nos mercados externos e também porque entre os maiores importadores dos capitais estão os conglomerados financeiros nacionais, que tomam emprestado lá fora por 2 % ao ano e emprestam aqui de 3 a 4 % ao mês! Se for no cheque especial pode ser até 10 % ao mês!
Como vamos evitar essa enxurrada de dólares? Com aumento do IOF? Isso beira o ridículo. O fato é que o Brasil virou picadeiro internacional de especulação e a indústria brasileira – e não só de calçados – está definhando. E se um belo dia, num futuro longínquo o Pais terá um governo com G maiúsculo, poderá ser tarde para alcançar o resto do mundo, que teve como progredir através de uma competição sadia.
O que a indústria de calçados pode fazer diante deste quadro? Será que o empresário calçadista terá como se preparar para o futuro e não fazer parte da triste estatística dos mortos neste combate desigual?
Olhemos para o resto do mundo, que já passou por esta experiência e vejamos o que aconteceu. É voz corrente e é fácil de demonstrar a decadência da outrora florescente indústria de calçados norte-americana, alemã, inglesa, francesa e mais recentemente da italiana, portuguesa e espanhola. Marcas de projeção, marcas com um século de tradição não conseguiram sobreviver e desapareceram ou mudaram para África ou Oriente.
Muitas foram vítimas da transição de gerações, de obsoletismo, da acomodação e de gestão com falta de sintonia com atual situação econômica e política. – Mas como, então, explicar que nos paises citados temos indústrias que prosperam mesmo nos dias de hoje? Um exemplo é a marca Edmonds Shoes nos Estados Unidos que foi fundada em 1920 e está ampliando a produção.
Na Itália vemos as marcas de penetração mundial que, podemos dizer, nem tomaram conhecimento da ameaça oriental. Qual é o segredo e o que podemos aprender com eles?
A lição mais importante é que, com países de mão-de-obra abundante e barata, associada à tributação baixa, às leis de proteção de trabalhadores praticamente não existentes, não podemos competir diretamente. Qual é, neste caso, o remédio a ser aplicado?
Há alguns pontos que fazem toda a diferença. Primeiro ponto importante é a qualidade tanto de mão-de-obra como de materiais usados. Materiais usados não só devem ser de primeira qualidade, mas tem que ser favoráveis à saúde dos pés e ao conforto térmico, com alta absorção de umidade exsudada pelas glândulas sudoríparas. Qual é o material que se enquadra nestes requisitos? O único material é o couro legítimo, curtido de modo a preencher estes requisitos.
Outro ponto importante nesta competição ferrenha são a criatividade e originalidade. Se os nossos estilistas estão varando as noites acessando paginas na internet em busca de inspiração estão perdendo tempo, porque por mais que corram, vão chegar atrasados.
E não menos importante é a flexibilidade e serviço. Flexibilidade significa poder mudar a linha de produção de um dia para outro de acordo com as exigências do mercado. E o serviço significa que, nestas condições, ninguém vai esperar um mês para receber a mercadoria pedida, mas espera a entrega contando as horas.
Ou seja, além dos problemas de criação, de produção ainda teremos de resolver os problemas de logística. Podemos esperar que o parceiro mais importante nesta projeção do futuro será Sedex ou equivalente.
Não nos iludamos. Abicalçados quer estender a proteção anti-dumping a outros paises também. É de se duvidar do sucesso da empreitada. Segundo o colunista Giba Um (dia 23.1.2011) “o Planalto já recebeu sinais de que terá pela frente complicada discussão comercial e diplomática. A China prepara a imposição de barreiras alfandegárias para frear a importação da soja.” - Atrás da soja pode ser minério de ferro, pode ser a carne etc..
Quem somos nos, os calçadistas, nesta briga de cachorros grandes? Mais ainda, quando hoje a China é parceiro comercial número Um e a exportação de manufaturados e semi-manufaturados representa 7 % do total de exportações brasileiras! Exportação de commodities tornou-se questão de vida ou morte.
O dragão pode parecer adormecido, mas os orientais sabem trabalhar com o tempo e tem uma paciência invejável. Não nos iludamos. O combate nem começou.
Zdenek Pracuch
16/05/11