EDUCAÇÃO ?

Ouço na televisão “A educação no Brasil está melhorando em todos os níveis”. Até que isso é mais do que necessário, mas será que se pode acreditar nos comerciais do governo, mais ainda, quando o ex- está promovendo o atual ministro da Educação para candidato a prefeito da cidade de São Paulo?

Numa das empresas onde presto assistência estou promovendo atualmente um estudo sobre a racionalização e melhora operacional no pesponto. Um jovem, inteligente, aluno do terceiro ano do ensino secundário foi treinado para cronometragem e solicitei a ele para preparar a seqüência dos trabalhos com respectivos tempos.

Vamos deixar do lado as tecnicidades e vamos ver o aspecto lingüístico da questão. O jovem me apresentou o resultado do trabalho, limpamente digitado e organizado, mas numa língua, que com certeza tem raízes no português falado no Brasil. No resumo das operações do pesponto há perolas como “colano canim na gaspea”, “passano costura no canim e gaspea”, “colano corim na peça da flor”, “passano costura no corim” e “colocano istraz na flor”.

A omissão do “d” na forma do gerúndio não foi erro da digitação, porque se repetiu em todos os verbos nas vinte operações listadas. - Será que a educação no Brasil está melhorando mesmo? Aluno do terceiro ano secundário, que freqüentou o fundamental e passou por dois anos do secundário pode cometer estes erros primários? Será que não passou por nenhum exame? Será que não teve nenhum dos trabalhos corrigidos sobre a ortografia correta?

Não me sinto muito a vontade para opinar sobre vernáculo, porque apreendi português com 23 anos de idade. Apreendi por necessidade para poder ganhar a vida, nunca tive um aprendizado formal. Mas, por Deus, escrever “corim” quando quero dizer courinho já é demais. Posso ainda perdoar o “istraz” porque “strass” não é palavra portuguesa.

Me lembrei que li um artigo sobre a educação, ou melhor a falta de, no suplemento Nossas Letras do jornal Comércio da Franca. Não tive preguiça de procurar no meu arquivo de artigos interessantes, os quais guardo – e eis! Artigo publicado em 09.07.2011, do estimado amigo o acadêmico Everton de Paula intitulado "O tempora, o mores!".

Diz no artigo citado “Algumas escolas particulares de ensino superior enfrentam, já há algum tempo, um gravíssimo problema se ministrarem um ensino de alta qualidade, antecipado por um vestibular nivelado por cima e seguido de avaliações bastante rigorosas, poderão sofrer, como se tem visto, evasão escolar e aumento de índice de inadimplência. Isto em tese. Se optarem pela má qualidade de ensino, poderão reter o alunado mas sofreriam duríssimas repreensões, qualificações e restrições por parte do MEC.

E continua: “Está bem, concordo que o problema é mais embaixo. O aluno não vem devidamente preparado pelas séries formadoras do ensino fundamental e médio, notadamente nas escolas públicas. Então por que não se investe no ensino público (em qualificação docente e otimização de recursos) em lugar de se aprovarem  e distribuírem cartilhas que ensinam que o aluno pode continuar se expressando na base do “nós pega o peixe?” E termina: “Capisce?”

Reli o artigo com prazer, porque não só trata do ensino(?) problemático, mas aborda também outras mazelas da vida cotidiana brasileira. Não vou enumerá-las aqui por dois motivos – não obtive autorização do nosso amigo para reproduzir as opiniões dele e, segundo, cada um de nos está careca de saber o que acontece em nossa volta.

Mas me trouxe a lembrança de um episódio vivido há alguns anos na Suíça quando acompanhei uma turma de sapateiros mineiros na compra de equipamentos na Europa. Fomos almoçar no Globe em Zurique. Restaurante quase popular. E a turma se soltou como se estivesse em Formiga ou Passos. Que fique bem claro, que o povo suíço é por natureza muito reservado, e respeita até por demais a privacidade para evitar de causar desconforto aos compatriotas.

Meus companheiros falavam alto, um sobrepujando o outro, davam altas risadas até o ponto em que tive de intervir – senhores, baixem a voz, todo mundo está olhando para nossa mesa com olhares de espanto e reprovação! - Mas a coroa foi dada pela garçonete que veio tomar pedido. Falei com ela em alemão e depois de certa simpatia criada pela conversação ela me perguntou: “Woher haben Sie diese Wilde gebracht?” ou seja: “de onde o senhor trouxe estes selvagens?”.

É uma pena que o professor Everton não levou adiante a sua proposta inicial, quando quis escrever uma série de artigos, divididos em partes o tempora, o mores! Parte 1- a civilidade; o tempora, o mores! Parte 2 – a educação formal e assim por diante. É uma pena de ter nos privado do prazer de estender a leitura sobre estes tópicos. Acredito que, se um único dos leitores pensaria sobre o assunto e decidisse modificar o comportamento dele, o esforço da escrita teria sido recompensado!

Valeria a pena republicar este artigo mais uma vez. Com uma chamada apelativa, para que estas idéias não se percam na correria dos dias, sufocadas pelo sensacionalismo das notícias, que em nada contribuem para melhorar a nossa civilidade!

E pensar que quando comecei escrever esta coluna quis comentar o choque que levei quando li as expressões “corim” e “canim”!

Zdenek Pracuch
17/10/11