EMBAIXADOR DA CHINA E GUIDO MANTEGA

As recentes declarações do embaixador da China e ratificadas pelo ministro Guido Mantega conforme o editorial Proteção constrangida do Estadão do dia 30.4.2007 me deixaram satisfeito, porque provaram com as vozes das mais autorizadas aquilo o que venho pregando há anos e que me tornaram uma pessoa non grata para muitos donos de empresas calçadistas.

O embaixador da China deixou a diplomacia de lado e disse com todas as letras, que em vez de se queixar e apelar para o governo, os calçadistas deveriam-se atualizar e tornar-se competitivos nos mercados mundiais. É claro que não é bem assim, e deste modo seria simplificar demais a situação criada, mas o fato real é que a indústria de calçados está bastante obsoleta no uso de materiais contemporâneos e está quase na Idade da Pedra quanto aos métodos de gestão empresarial.

O ministro Guido Mantega foi mais comedido, mas o editorial do Estadão não deixou por menos: “Os setores calçadista e têxtil (neste, o governo voltou sua atenção para o segmento de confecções) estão entre os que mais foram afetados pela persistente valorização do real em relação ao dólar, que barateia as importações e reduz a competitividade dos produtos brasileiros no mercado externo. Mas o câmbio é apenas um dos problemas enfrentados pelos produtores. Há outros, de caráter estrutural, que reduzem a competitividade da economia brasileira.”

E prossegue o editorial: “A alta da alíquota decidida pela Camex alivia o problema daqueles segmentos industriais, dando-lhes uma sobrevida, e pode evitar o imediato fechamento de postos de trabalho. Mas, se não for seguida de contrapartidas – como o aumento de competitividade dos setores protegidos, por meio de investimentos das empresas em modernização, treinamento de mão-de-obra, novas tecnologias e novos produtos - e da melhora, pelo governo, das condições de produção no País, não será mais que um paliativo.”

“Com a crescente abertura comercial, na qual o Brasil está empenhado, as empresas precisam adquirir músculos para competir não apenas no mercado interno, mas sobre tudo no mundial. A proteção tarifária em nada contribui para o ganho de eficiência. Ao contrário, ela induz as empresas protegidas à acomodação, que pode ter conseqüências dramáticas para o País diante do rápido avanço da produtividade e da competitividade no resto do mundo.”

O editorial é conciso e diagnosticou com perfeição a situação que estamos vivendo. Não é com medidas de proteção que a indústria de calçados será salva. Não faz tanto tempo ainda, que vimos o que a proteção da indústria de informática pelos governos militares causou ao País. Até hoje estamos atrasados em tecnologia ante o resto do mundo.

O fato incontestável é, que embora o produto da indústria de calçados possa competir com os melhores do mundo, estamos produzindo muito caro e gerenciando as empresas muito mal. E não é de hoje.

Já em 2000 foi publicado pela FATEC o livro do prof. Hélcio Martins Tristão

Cluster e a cadeia produtiva de calçados de Franca onde o autor através de cálculos percentuais e gráficos demonstra a realidade da indústria de Franca. Alguns aspectos são realmente alarmantes, principalmente na parte de gerenciamento e na de condução das empresas.

De 2000 para 2007 pouca coisa ou nada mudou, como posso confirmar com meu trabalho no meio calçadista. A situação de algumas empresas que no passado serviam de paradigma para o resto da comunidade confirma o diagnóstico feito pelo prof. Hélcio. “O conhecimento médio dos métodos administrativos contemporâneos no setor chegou a 66,8 %, houve o caso em que o percentual foi zero. Outro aspecto identificado foi que os próprios administradores aqui incluídos, direção e gerência, admitiram existir uma forte carência de conhecimento no setor” – escreve prof. Hélcio. Mudou alguma coisa? Só se for para pior.

Qual é a dedução sobre o editorial e a situação atual? O embaixador da China está rindo na nossa cara, dizendo claramente: Cresçam e apareçam se quiserem competir conosco. E o ministro Mantega diz: "Fizemos o que os tratados nos permitem, mas o problema é de vocês." – Ou seja, o governo fechou a boca dos calçadistas com esta medida que, a rigor, não vai mudar nada. O calçado virá ainda mais sub-faturado, o contrabando será ainda maior e tudo fica como dantes ....

Alguma dúvida? Só para exemplificar: França tem 30.000 fiscais aduaneiros para um território igual ao Estado de Minas Gerais. Brasil tem 8.000 para vigiar praticamente um continente!

Zdenek Pracuch

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