COMO ENFRENTAR OS NOVOS DESAFIOS
Alertam os filósofos do mesmo modo como os experts em gestão, que a única coisa constante é a mudança. A natureza, nossa mãe, é um exemplo indiscutível. Não há um dia igual ao outro e sempre somos colocados diante de novas situações.
Há sempre algum modismo em matéria de comportamento ou de gestão. Os dois modismos atuais são pela ordem a sustentabilidade e a inovação. A palavra “sustentabilidade” é tão nova, que o corretor da gramática da Word 2010 me avisa, que esta palavra não existe! - Mais uma prova da mudança constante.
Mas vejamos o tópico “inovação”. Para o setor calçadista há uma plêiade de inovações nestes primeiros anos do novo milênio, e todas elas de grande importância, embora estejam entrando com tanta sutileza, que o empresário afogado em problemas rotineiros mal se dá conta da existência delas. Entretanto, as inovações, ou podemos dizer as diferenças entre o passado e a atualidade já estão incorporadas na nossa vida diária.
A diferença mais marcante no setor calçadista e, muitos donos das empresas ainda não se deram conta do fato, é que o centro da gravidade da gestão se transferiu da área de produção para a área de comercialização. Hoje em dia é muito mais difícil de identificar o que produzir, quando produzir, para que faixa do mercado produzir e como colocar o produto no mercado com qualidade e maior rapidez, do que propriamente executar a produção.
A tarefa é muito complexa e poucos empresários estão preparados tanto tecnicamente como intelectualmente para se sair bem com esta tarefa. – Tudo começa com a definição do mercado a ser abordado. Pesquisa de mercado, reuniões com estilistas, viagens de exploração para mercados definidores de moda e principalmente aquela qualidade de feeling, ou seja, sentir o que está por vir, depois de analisar estas variáveis.
Esperar que os representantes tragam estas informações, por sinal vitais para o sucesso, é pura perda de tempo e de mercado. Representante nos diz o que está vendendo, hoje, mas é incapaz de apontar as tendências. Quando visita uma loja, o interesse dele está em tirar o pedido. Não quer perder tempo em conversas com balconistas para saber o que os clientes procuram e não acham. Mas justamente esta é a informação que a fábrica necessita.
Digamos que esta etapa de pesquisa de mercado e a definição do produto foi terminada com sucesso. Vamos preparar a coleção? Estamos novamente nos defrontando com inovação. Uma coleção é um dos resquícios dos métodos de venda do século passado. Foi oportuna a observação do varejista Ronnan do Rio Grande do Sul em recente artigo do jornal O Exclusivo: "tenho 250 modelos na vitrine dos quais vendem 50! Vinte por cento. E dificilmente depois de uma Feira podemos apontar vinte modelos campeões de venda dos cem ou duzentos modelos que levamos. Venderam bem dez, quinze ou vinte?"
Resultado previsível. Não há estilista ou modelista no mundo que possa criar cem modelos originais diferenciados. E mais ainda num espaço de tempo exíguo onde não tem tempo nem para enxugar o suor da testa! – Como ainda podemos pedir que os modelos sejam feitos com a economia de material e de processos produtivos apurados e perfeitos? Não há como.
E vem a pergunta analítica: por que fazer uma coleção, desde o começo condenada a ser mal aproveitada, com enorme custo em materiais, trabalho e tempo? – Por que não fazer lançamentos espaçados durante o ano todo, um modelo por semana, por quinzena, três por mês, seja lá como for, mas modelos originais, criativos, diferenciados e que darão chance aos nossos vendedores de ter uma novidade para cada visita?!
A mesmice da modelagem, tanto dentro da empresa, como entre as empresas concorrentes é o resultado desta ânsia de criar coleções. - Quando trabalhava na gerencia do setor de calçados numa trading em Estocolmo, conheci uma fábrica de botas altas femininas em Vaasa, na Finlândia, que sempre contratava o modelista chefe para um período de seis meses, para ter certeza de ter sempre idéias novas e traços diferentes da modelagem anterior.
Mas o mais importante de tudo é ter uma visão aguçada e se antecipar dentro das tendências identificáveis dos rumos que a moda irá tomar, desde que comecemos a observar com objetividade e mente aberta. Não é uma tarefa fácil o que atesta o fato, de como é pouca gente que pratica isso. Mas é fundamental para a sobrevivência da empresa nos tempos difíceis que temos pela frente.
Não será o volume de produção, nem os preços baixos que nos garantirão a sobrevivência. Com o custo Brasil, legislação trabalhista obsoleta, carga de juros a maior do mundo, tributação escorchante, baixa qualificação de mão-de-obra – o jeito de sobreviver é com um produto diferenciado, de alta qualidade, feito com materiais ecologicamente defensáveis e com serviços perfeitos a começar com entregas expressas.
Temos bastante munição para queimar, mas o tempo está ficando escasso e a reação às mudanças que já estão aqui é vagarosa demais, se é que existe. É possível reagir ao tsunami oriental. A prova disso existe nas fábricas (poucas) na Itália, na Espanha, na Dinamarca, Suécia e até nos Estados Unidos - quem diria? A alemã Baltes e a inglesa Berghaus no segmento de botas esportivas de couro estão batendo todos os recordes de vendas. Ou seja, a originalidade e nichos de mercado existem, até nos países, que praticamente deixaram de produzir calçados.
Em próxima coluna abordarei os aspectos de métodos de produção, que se enquadram na filosofia de inovação A inovação que abrange todos os aspectos de ação do setor calçadista.
Zdenek Pracuch
06/02/12