ENGENHARIA DE PRODUÇÃO

Entre meus “pupilos”, os jovens com os quais trabalho nas indústrias onde presto minha assistência, fui procurado por um, extremamente capacitado e promissor, que quis ouvir a minha opinião sobre o que deveria estudar como extensão de um diploma do ensino superior que já possui. Estava pensando em estudar administração de empresas. Acompanho os passos dele já durante dois anos e vejo como domina os assuntos pertinentes à produção. Cronometragem, seqüências de trabalho, controle de gastos e desperdício de materiais, custos e resultados econômicos de operação etc..

Sem o saber, já está estagiando como universitário de engenharia de produção, praticando diariamente o que o curso, em boa parte, lhe irá ensinar. – A indústria de calçados está com o seu crescimento bastante comprometido, devido a fatores vários. Em boa parte, talvez, exatamente ao que o jovem se propõe a aprender, ou seja, a uma falta de gestão industrial, de acordo com os mandamentos da vida econômica do terceiro  milênio

A gestão da parte fabril, com embasamento nos princípios econômicos e financeiros, é essencial para um bom desempenho. Infelizmente, a indústria de calçados, bem como a de confecções, de móveis e tantas outras indústrias de transformação, tiveram origem como empresas familiares de fundo de quintal, sem nenhuma experiência de gerenciamento, por mais primitivo que fosse. A situação do mercado o permitia e até incentivava este crescimento desordenado. As importações eram dificultadas, até pelo câmbio sempre desfavorável, fiscalização sonolenta e a clientela não tinha escolha.

Ou aceitava o que foi produzido ou ficava sem mercadoria. Hoje, a situação é completamente diferente, porque as nossas empresas competem com o mundo inteiro e os brasileiros aprenderam a comprar produtos acabados na China, na Índia, na África do Sul, em todos os lugares que têm alguma coisa atraente a oferecer. Em nossas indústrias agora começam aparecer as falhas estruturais, acumuladas durante os anos de bonança.

Li outro dia, que o Brasil já tem 150.000 estrangeiros trabalhando em funções técnicas e gerenciais. Achei o número exagerado, mas isso não muda o fato da absoluta carência de pessoas de nível superior para comandar a área técnica das nossas empresas. A gestão econômica e da área de produção tem reflexos diretos sobre a produtividade e lucratividade das empresas.

A tecnologia, cada vez mais complexa, exigências do mercado nas questões de qualidade do produto e prazos de entrega, sem falar nos custos, exigem das empresas um desempenho do primeiro mundo o qual só pode ser conseguido com pessoas altamente qualificadas. Estamos longe disso. Ensino técnico está longe de suprir em quantidade e qualidade o pessoal necessário para um desempenho no minimo suficiente.

É assustador entrar em muitas empresas, que ostentam até marcas respeitáveis. Mas atrás da fachada imponente está uma indústria do século passado, senão do século dezenove. Explica-se com relativa facilidade: o crescimento da empresa não foi planejado, foi ao sabor das fases da economia e o aspecto da indústria reflete isso. No lugar de um lay-out lógico, funcional, o que vemos são “puxados” emendados um no outro, quando não em barracões anexos de qualquer jeito, mal iluminados, sem ventilação, com desníveis, escadas no meio do salão – simplesmente um retrato de atraso.

Até hoje, poucos donos de fábrica na área calçadista, entenderam que a produtividade começa no desenvolvimento do produto. Coleções feitas de afogadilho, sem nenhuma preocupação com economia de materiais, muitas vezes com excessos desnecessários, ou com duas e até três camadas de materiais sobrepostas, com nenhum estudo sobre a operacionalidade, são postas em produção.

É uma tarefa excepcional para um engenheiro de produção ajudar a definir um fluxo de trabalho que seja economicamente viável e produtivo, com reflexos diretos sobre os custos. – Evitar transportes inúteis dentro da empresa com mudança de lay-out, orientar um fluxo contínuo de trabalho sem retornos, seguindo sempre em frente, desde a recepção da matéria prima até o despacho do produto e assim por diante.

Quantas operações supérfluas estão sendo praticadas, porque nunca ninguém parou para questionar os processos! “Sempre fizemos assim” ou “todo mundo trabalha desta maneira” são as respostas que recebo aos questionamentos que costumo fazer. Tudo bem, se todo mundo quebrar Você vai quebrar também?

Tem um lado perigoso para os futuros engenheiros de produção. Até que ponto terão voz ativa nas empresas depois de identificarem os problemas e sugeriram as soluções. Há quase certeza que vão ouvir “este jovem tem que ganhar experiência, eu tenho vinte anos de indústria e sei o que faço!” ou “alguém já fez isso, será que dá certo?

Vale a pena citar mais uma vez o Niccolo Machiavelli sobre a dificuldade na introdução de uma nova ordem nas coisas. Mas é certo que o progresso não pode parar. A evolução contínua em todos os setores da vida isto é um fato incontestável. Para os jovens que hoje trabalham na indústria de calçados e querem garantir um futuro próspero só posso recomendar o estudo da engenharia, inclusive a da produção, cujo currículo é mais curto. Com consolo, que os princípios que vão apreender podem ser aplicados em qualquer indústria ou atividade humana e não precisam ficar restritos ás indústrias de calçados.

Zdenek Pracuch
23/07/12