E A ESPANHA, O QUE FAZ?

Já escrevi várias vezes aqui sobre a transição pela qual está passando a indústria de calçados no Brasil. Mencionei também, que não precisamos inventar nada para achar uma saída que permita a sobrevivência, de pelo menos uma parte desta indústria, já que a época dos grandes conglomerados e de grandes números de produção está irremediavelmente perdida para os asiáticos.

Não precisamos inventar nada, basta observar o que está acontecendo em outros países, tais como Alemanha, Estados Unidos, Itália ou Espanha e Portugal, outrora donos  de importantes indústrias de calçados e que hoje, a despeito do fechamento da maioria das fábricas, mantém um segmento industrial que sobrevive e, em muitos casos, em melhores condições que antes.

Para documentar esta linha de pensamento e para despertar a atenção dos nossos donos de empresas quero transcrever trechos importantes do pronunciamento do senhor Rafael Calvo, presidente da Associação dos Produtores de Calçados da Espanha (FICE). - Como é de conhecimento geral a Espanha passa por uma crise econômica muito grave, com desemprego crescendo em proporção assustadora, o que não deixa de ter reflexos negativos sobre a indústria e o mercado de calçados.

Mas o senhor Calvo ao mesmo tempo otimista e realista o que, em todas as circunstâncias representa uma ótima combinação, é de opinião, que existe uma saída honrosa desta situação e aponta os caminhos. E nada há nas observações dele que não possa ser aplicado na íntegra no Brasil, na minha opinião, antes que seja tarde demais.

Senhor Calvo reconhece que a situação econômica da Espanha não facilita em nada a vida dos produtores de calçados. Mas acredita que a estratégia focada na qualidade, design, pesquisa e desenvolvimento e nos mercados de exportação pode ajudar a indústria a atravessar o período de dificuldades.

Diz o senhor Calvo: ”O consumo baixou, embora o calçado continue um bem indispensável, de primeira necessidade. Acontece, que já por vários anos estamos fazendo as coisas certas tais como investir em inovação, promovendo as nossas marcas, inovando na tecnologia e abrindo novos mercados. É um trabalho tremendamente duro, mas nestes últimos anos conseguimos estabilizar o setor e até criar alguns novos empregos.”

“Como indústria tivemos que tomar algumas decisões importantes. Acabamos um pouco menores mas, na minha opinião, agora temos o tamanho que deveríamos ter. É triste, mas algumas empresas que não optaram pela exportação, pelo design ou pela promoção da marca foram deixadas para trás.”

Cita os números para 2012, que mostram, que (até Abril) o volume dos calçados exportados cresceu em 16,5 % embora em valor baixou um pouco. A exportação para China é um ponto muito positivo na opinião dele. Prestem atenção para o que ele diz: ”Preferimos vender calçados para a China, do que defender o nosso mercado da importação chinesa. Agora nosso calçados vende na China por preços melhores do que nos Estados Unidos. O preço médio por par subiu até 60 % nos anos recentes e o relacionamento que temos com varejistas e distribuidores na China é bom. Sendo assim a nossa política é: exportar mais calçado espanhol para China, do que trabalhar para encontrar meios para defender o mercado espanhol das importações chinesas. Não sou partidário de defender a proteção ao extremo.”

É uma opinião bem diferente daquelas externadas pelos dirigentes das entidades de classe brasileiros. É importante notar que ele disse “nestes últimos anos conseguimos” – em outras palavras, não será com medidas pontuais, emergenciais que a indústria sairá da crise que está vivendo a despeito dos desmentidos e declarações ufanistas que, volta e meia somos obrigados a engolir. Vale a pena ressaltar, que a União Européia aboliu a sobretaxa sobre as importações da China, a despeito dos protestos da indústria italiana, em 01/01/2011.

O trabalho é duro, como o senhor Calvo frisou e leva muito tempo, mas terá que ser feito. A alternativa é desaparecer. O que, obviamente, não interessa a ninguém. O único problema é que o tempo está passando e o que deveria ter sido feito ainda nem começou. É um trabalho de todos e cada um terá a sua parcela a desempenhar. Pequeno, médio e grande empresário, entidades de classe, sindicatos e o governo. Ninguém pode se omitir. A estratégia deve ser analisada, definida e posta em execução. Não há outro caminho. E os espanhóis já estão caminhando.

Zdenek Pracuch
03/12/12