ESPIONAGEM INDUSTRIAL OU ROUBO?

Tomei conhecimento de um caso inusitado que aconteceu numa indústria de calçados em Franca. Um funcionário de uma instituição pública, a qual entre outras finalidades oferece serviços de assistência às indústrias que precisam de um aconselhamento profissional mais específico, atuou na dita indústria, conheceu um produto muito especial com tecnologia pouco conhecida e montou uma fábrica para ele mesmo nos mesmos princípios que chegou a conhecer.

Mas não bastou isso. Através de uma ex-funcionária da indústria que está imitando, está procurando recrutar funcionários treinados e experientes que continuam trabalhando na fábrica por onde passou. - Há muitos aspectos a considerar sobre o comportamento deste profissional, se é possível classifica-lo assim. Sob o ponto de vista de honestidade, de moral e principalmente sob o ponto de vista da ética profissional o mínimo que se pode dizer é que o comportamento dele é lamentável.

Presto meus serviços em várias indústrias em várias localidades. Muitas destas indústrias são concorrentes diretos. Muitas vezes sou perguntado: “Como eles fazem?” ou “O que eles planejam fazer?”, mas não há evidentemente resposta para estas perguntas. Geralmente respondo que não tenho autorização para comentar estes assuntos, mas posso apresentar o questionador ao dono da indústria objeto da curiosidade para obter a resposta dele, diretamente.

Há poucos dias atrás, depois de longa conversa sobre assuntos bastante confidenciais com o dono de uma indústria de tênis masculino, com um crescimento invejável, o mesmo me perguntou a respeito de um concorrente para o qual também presto serviço. Disse para ele, com toda franqueza, que mesmo se nosso relacionamento terminasse neste instante, não responderia. Esperei uma reação a altura mas, surpreendentemente, o dono da empresa me disse, que perderia toda confiança que tem em mim, se eu tivesse respondido a pergunta dele.

O conceito da ética profissional anda, ultimamente, bastante abalado. O caso da Enron americana virou sinônimo de tudo que não deveria existir, mas existe. A mais nova cadeira nas universidades americanas se chama “Ética empresarial”. Sentiram necessidade de incutir nos jovens os valores éticos, além da preocupação sobre o papel das empresas nas comunidades. E isto acontece num país onde há pouco tempo o único valor pelo qual se mediam as pessoas era o ganho que conseguiriam. Não se parava para pensar sobre os métodos de como estes ganhos eram conseguidos. Era um verdadeiro “vale tudo”.

Na indústria de calçados e na indústria vinculada a moda, há muito tempo prevalece a filosofia de “nada se cria, tudo se copia”. De um certo modo este ditado tem embutida muita razão. Não há empresário que não volte de uma viagem ao exterior, com pelo menos duas malas a mais, recheadas de modelos que comprou para “adaptar” às condições ou mercado local. A internet facilitou bastante a vida de nossos modelistas criadores que passam as noites navegando nos sites do mundo da moda para se “inspirar”.

Estas ações fazem parte do cotidiano e são vistas silenciosamente como socialmente aceitáveis. Mas, trair a confiança dos contratantes e copiar sem nenhum pejo as conquistas duramente atingidas em anos de trabalho, como é o caso do instrutor, funcionário público, ou pelo menos funcionário de uma entidade oficial, convenhamos, é demais. Falar em deslize ético é pouco. Prefiro chamar a atitude dele de roubo mesmo. Embora se trate de roubo intelectual, não deixa de ser roubo.

Os valores morais com que estamos forçados a conviver estão se deteriorando a olhos vistos. Apertamos os botões da televisão com medo das tragédias e crimes que foram cometidos durante o dia. Não tenho a menor idéia do que podemos fazer, individualmente, no plano social ou político. Mas pelo menos nas nossas empresas devemos promover e praticar o comportamento ético até as últimas conseqüências e não tolerar nenhuma complacência.

Zdenek Pracuch