A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA NÃO PARA

Muitas vezes falo sobre a acomodação e pouca evolução tecnológica na indústria de calçados. Há motivos para isso, reconheço, como o pequeno acesso ao conhecimento do desenvolvimento ou, o que é pior, a acomodação. “Para que mexer se até agora deu tudo certo?” A evolução não para, há sempre pessoas ou entidades tentando se superar e fazer algo de um modo melhor, mais barato, mais rápido, mais seguro, enfim – melhor.

Um excelente exemplo está sendo dado pela firma alemã ALSA. Num terreno delicado, onde parecia que atingimos a última fronteira, o limite do viável e do seguro. Parecia. Mas não é, que alemães vieram com uma novidade revolucionária, que irá baratear e tornar mais seguro e racional o banal ato de colagem de sola sobre o cabedal?

Embora a finalidade deste artigo seja chamar a atenção às possibilidades nunca esgotadas de melhorias, de sair da acomodação e da obsolescência e tentar andar por caminhos novos, com certeza arriscar, mas pelo menos tentar melhorar – um pouco de tecnologia será mencionado, porque esta pagina-web está sendo acompanhada principalmente pelas pessoas vinculadas à indústria de calçados.

O ato de colagem da sola ao cabedal montado, hoje em dia, é sujeito à pelo menos oito processos em seqüência. Primeiro, lavamos a sola para remover os vestígios de desmoldantes aplicados nas matrizes das injetoras de solado, depois asperamos a superfície da sola com ajuda de escovas de aço, aplicamos a primeira demão de cola, deixamos secar, aplicamos a segunda demão de cola (a principal), deixamos novamente secar, reativamos a cola mediante exposição ao calor e finalmente apontamos a sola sobre o cabedal e prensamos numa prensa.

No lugar da asperação mecânica podemos usar o método químico, aplicando halogênio, o que por sua vez envolve alguns riscos para o ambiente e saúde do operário pelos vapores exalados.

Pelo sistema AGO, como os alemães denominaram a operação (na década dos anos quarenta, durante a segunda guerra mundial, o calçado feminino era feito na maioria dos casos com solado de madeira, e na fábrica BATA onde trabalhava na época, o sistema de colagem também foi chamado de AGO – será que a jovem geração dos alemães nunca ouviu falar deste sistema?) elimina todas as operações acima enumeradas, com exceção de duas últimas – ou sejam ativação e prensagem.

Como funciona? A cola é aplicada sobre um filme plástico, uniforme, e secada a seguir enquanto corre sobre cilindros. O filme é recortado normalmente com navalhas com perfil da sola e colocado no molde onde será injetado ou derramado o líquido de PU (poliuretano) do qual a sola será moldada.

Na hora de reativar a cola para colagem no cabedal, o filme é retirado (como num selo auto-adesivo) e sola é reativada, apontada e colada normalmente sobre o cabedal. – A economia de mão de obra, da cola, do solvente para limpeza da sola, do espaço nas esteiras transportadoras reservado à secagem da cola, limpeza geral, aspectos de saúde e de proteção de ambiente são indiscutíveis.

Uma outra vantagem consiste em tempo praticamente ilimitado para armazenagem das solas cobertas com filme plástico, que não corre perigo de contaminação e principalmente da ação do oxigênio que ataca qualquer superfície descoberta, criando uma camada oxidada que impede uma colagem perfeita.

Para nós fica a torcida para que os fabricantes brasileiros estudem a patente dos alemães e vejam o que podem fazer por nós, justamente na hora onde cada fração de centavo economizada no material ou na mão-de-obra é uma bala a mais para a guerra que já foi declarada.

Que não seja perdida a lição: mesmo nos procedimentos e operações consagradas, há sempre a possibilidade de melhora e de aperfeiçoamento.

Zdenek Pracuch