EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA
Já escrevi aqui em dois artigos sobre a evolução tecnológica na indústria de calçados, afirmando no primeiro deles, que a evolução, aparentemente, chegou ao ponto morto. Só para ter que me corrigir em artigo posterior sobre um avanço tecnológico no último ano que, com absoluta certeza, irá mudar e em muito o panorama na área de produção.
Neste meio do tempo, entre os dois artigos, também, mencionei o fato, que a robótica está entrando para a indústria de calçados e, que dentro de poucos anos, poderemos ter fábricas com produção diária de oitocentos a mil pares, tocadas por não mais que vinte funcionários, altamente especializados, digamos engenheiros mecânicos, de produção, ou de informática. Estes equipamentos já estão disponíveis no mercado. O artigo despertou reação bastante grande entre os que se sentiram e, com razão, ameaçados por esta perspectiva de um futuro ameaçador.
Hoje quero falar sobre outra revolução tecnológica, que também já está no mercado, sobre as “impressoras 3D”. Está revolução que já está em pleno andamento, mantém se silenciosa. Tanto os consumidores, como os produtores exigem cada vez mais produtos individualizados, exclusivos. E a manufatura eletrônica atende exatamente estes desejos. Porque, contrariamente as outras tecnologias, não necessita de volumes para reduzir os custos. O custo não cresce pelo pequeno volume de produtos ou pela maior complexidade.
Temos que mudar a nossa mentalidade e repensar bastante tudo que até agora prevaleceu como parâmetros de uma gestão produtiva e eficaz. A começar pelo nome da tecnologia. Impressora 3D? Como vou chamar um dispositivo de impressora, equipamento esse que tem condições de colocar camadas de até 2 cm de concreto “impressas” para formar peças complicadas para a construção civil? Como vou chamar de impressora um dispositivo que coloca camadas de polímero de 1,5 ou 2,0 mm até formar um solado, digamos, do tipo Anabela? É óbvio que a imagem mental de uma impressora nos sugere algo muito diferente.
Durante os meus setenta anos de atividade já acompanhei e colaborei em muitas mudanças que modificaram o panorama da indústria. Mas as mudanças sempre foram suaves, quase imperceptíveis. Hoje temos fábricas bem equipadas que não tem nenhuma máquina de blakear ou de pontear. (O nome “blakear” vem do colonel Blake, inventor da máquina de costura, muito reforçada, que costurava o solado ao cabedal.)
Por que as fábricas não tem mais este equipamento? Porque hoje, se os solados não estão injetados diretamente sobre o cabedal, são colados por meio de colas de alta resistência. – A própria organização de produção sofreu mudanças na gestão com a introdução de transportadores mecanizados, mas cuja eficiência, até hoje, pasmem, cinquenta anos depois, ainda não foi bem entendida e aplicada pelas gerências de muitas fábricas, que mais parecem depósitos de mercadoria em produção do que unidades produtivas.
Gastei mais de vinte anos para convencer sobre o uso de solados pré-fabricados. Quantas objeções e quantas dificuldades! Quando conheci Franca no começo da década dos anos sessenta, uma das fábricas mais importantes construía salto capa por capa sobre o calçado já montado(!) porque o chefe da produção achava, que não sendo assim o salto iria fazer “gaveta”! Ainda há veteranos que podem confirmar isso.
Mas voltemos às impressoras. Elas já estão no mercado. Elas já estão no Brasil. São elas que podem fazer a diferença no nosso combate desigual com os importados. Como? Criar coleções exclusivas, reduzidas, individuais de solados, enfeites, acessórios com uma rapidez nunca antes vista, que pode dar asas à imaginação e criatividade dos nossos estilistas, que poderão adaptar as suas criações ao mercado em questão de dias e não de meses como até agora foi aceito como inevitável.
As impressoras, repito, já estão no mercado. Das mais caras para a indústria aero-espacial até as mais baratas para a indústria de construções. Sapateiros ainda não se mexeram. Espero que na Fimec já teremos, pelo menos, uma amostra em exposição. Por que? Porque uma das construtoras já tem dois, sim, dois representantes no Brasil.
Hoje temos no mercado os gigantes americanos 3-D Systems e Stratasys, ou na Europa Eos e Concept Lab, alemãs. A aplicação pode parecer ficção científica mas, afinal, estamos no terceiro milênio. Os componentes já estão sendo impressos para os carros da Formula-1 e os engenheiros britânicos “imprimiram” uma bicicleta onde só faltou colocar pneus e corrente.
Sapateirada, vamos nos mexer? Pode ser que a minha condição de saúde não me permitirá acompanhar o trabalho in loco, mas que vou observar e cobrar, até onde vai dar, tenham certeza!
Zdenek Pracuch
25/03/13