EXPERIÊNCIA = HÁBITO = ACOMODAÇÃO.

A equação do título acima representa a situação atual da grande maioria dos donos de empresas na indústria de calçados. É interessante observar que a gente que usa telefone celular durante vinte e quatro horas por dia, que vive na frente do seu lap-top, nem sempre para trabalhar, mas muitas vezes para olhar Orkut ou coisas ainda menos recomendáveis, tem uma verdadeira ojeriza para adotar sistemas de gestão mais condizentes com o terceiro milênio e com a crise que assola a indústria de calçados ocidental (inclusive sul-americana).

A experiência é um bem não tangível, que não pode constar do ativo de uma empresa. É um bem que está situado no tempo e no espaço e, conforme qualquer pessoa sabe, o tempo e o espaço estão sujeitos a mudanças constantes e permanentes.

Como, então, viver de experiências acumuladas no decorrer, ás vezes, de decênios? Há uma única maneira: atualização permanente. Basta observar o que ocorre na nossa vida diária e como ela mudou nestas últimas dezenas de anos:

Ainda me lembro quando vi a primeira televisão na rua 7 de Abril, no centro de São Paulo, na vitrine dos Diários Associados, em preto e branco, com um enxame de gente se acotovelando para conseguir chegar mais perto. – Do telegrama passamos ao telex, do telex para fax e do fax para e-mail. – A televisão? Nem é bom falar. Em cores, transmissão direta de qualquer ponto do planeta, telões, plasma etc..

Já que alegremente adotamos todas estas novidades, por que insistir em gerir as empresas do mesmo modo como na primeira metade do século passado? Mas, infelizmente é isso o que estamos vendo. Agora, por exemplo, temos a Francal. A feira, que no passado garantiria o trabalho para uma indústria para, pelo menos, a metade do semestre, hoje não traz pedidos para manter a fábrica em funcionamento por quinze dias. Tornou-se uma mera feira promocional, de relações públicas.

O que mudou? Mudou toda a sistemática de comercialização. Mudou a estratégia da manutenção do capital de giro, de giro de estoques, da influência da mídia sobre a moda e o comportamento dos compradores. Enfim, mudou tudo.

No entanto, o que vemos, são as fábricas trabalhando febrilmente na véspera da Feira, preparando “coleções”, que duram apenas o tempo da feira. Pelo que foi visto na feira, depois, as coleções são expurgadas, completadas e repensadas e só depois os vendedores saem para buscar pedidos. Enquanto isso ....

A situação do mercado exportador é ainda mais dramática. Não culpem dólar por tudo. Dólar estava bem alto e nem por isso as exportações decolaram. Mantiveram-se em torno de 150 milhões de pares por ano, com ocasional ajuda da Argentina para melhorar as estatísticas. Isso durante dez anos!!! Enquanto isso os chineses tomaram e continuam tomando os mercados que poderiam ser nossos. Nestes dez anos a importação do calçado chinês para os Estados Uni dos aumentou de quase zero para UM BILHÃO E SEISCENTOS MILHÕES DE PARES, no ano passado! Culpa da nossa cotação do dólar?

Foi publicada notícia de que o ministro Furlan prepara algum plano de subsídio governamental para segmentos de indústrias em dificuldades, causadas pelo precipitado reconhecimento da China como economia de mercado livre. -mém. Isso vai resolver todos os nossos problemas, do mesmo modo como a admissão do “companheiro” Chavez para o Mercosul.

O que unicamente pode resolver a crise da indústria calçadista nacional em combate com os “companheiros” sapateiros chineses é uma completa mudança da mentalidade dos nossos empresários. Existe um tripé imbatível para qualquer indústria: produzir:

1 - QUALIDADE,
2 - ORIGINALIDADE POR PREÇOS RAZOÁVEIS COM GRANDE VALOR AGREGADO,
3 – SERVIÇOS PERFEITOS (ATENDIMENTO, ENTREGAS PONTUAIS E, SE POSSÍVEL, PRONTA ENTREGA).


Reconheço que é um desafio e tanto.

Mas atenção, a penalidade pela não adoção de gestão de acordo com o mundo mudado é sair do mercado. Ainda há tempo para mudar, ainda há tempo de sair da acomodação preguiçosa. Sabendo que as mudanças ocorrem na velocidade eletronica, não adianta pensar em termos da velocidade de carro-de-boi. Principalmente, quando já estamos, nesta corrida, largando de posições atrasadas. Para acentuar este pensamento pergunto: querem atuar como Parreira ou como Felipão?

Zdenek Pracuch