FATURA DA IMPREVISÃO FOI APRESENTADA

Como é fácil deixar se embalar pelo sentimento de estabilidade próspera, quando as coisas marcham bem e nada indica, que a situação poderia piorar e tornar-se ameaçadora da própria sobrevivência. Mais ainda, quando a previdência e planejamento a longo prazo não fazem parte da índole do empresariado nacional.

E, de repente, mas não tão de repente assim, a solidez do mundo econômico começou a apresentar fissuras e rachaduras e aquilo o que parecia ser uma recessão moderada, que poderia ser controlada com algumas medidas preventivas, virou uma recessão que o mundo não via há muitas décadas. Não é nenhuma profecia catastrofista dizer, que o pior ainda está por vir.

Os gigantes tremem, tratam de suturar as feridas, de repente os planos grandiloquentes de fusões e de investimentos são cancelados, ou pelo menos adequados à realidade do momento. O bom senso e a prudência, que deveriam ter prevalecido há alguns anos, estão sendo convocados do esquecimento para tirar o carro do atoleiro.

E a indústria de calçados, como é que fica? Nesta hora do aperto, que na maior parte ainda está por vir, todo mundo espera ouvir alguma mágica, que permita escapar do pânico generalizado. O que fazer? Bem, o que foi feito está feito. Importante é fazer frente ao futuro e adequar a atuação para a situação atual. As bazofias do nosso Líder Iluminado, de que o Brasil é uma ilha de prosperidade e sofrerá muito pouco “se houver a tal recessão, que é problema do Bush”, só se for a Ilha da Fantasia, porque uma ilha de prosperidade, num cenário mundial do aperto, nunca poderá ser.

O que fazer? Começar por uma rigorosa revisão dos planos de investimentos e de expansão, caso alguém os tinha. Restringir e encurtar ao máximo o prazo das vendas a prazo e não contar com fontes de crédito alheio. Controlar com mão-de-ferro os resultados e comportamento do capital de giro. Neste ponto é que aparece a fragilidade da gestão da grande maioria de empresas. Quem é que faz isso?  Quem é que sabe fazer isso? Encontro este desconhecimento a cada passo. Os índices apurados pela contabilidade clássica, como o de liquidez ou de retorno sobre os ativos, não servem rigorosamente para nada.

Se servissem, os bancos não estariam numa saia justa como estão agora, com  analistas de crédito apelando para toda dialética possível, justificando concessão de créditos injustificáveis. – Os dois últimos meses se prestam maravilhosamente para fazer caixa, inclusive com vendas a vista nas compras de última hora.

A despeito de todo cenário econômico desfavorável a notícia ainda não chegou à população, que fiel aos hábitos dos últimos anos vai gastar no Natal o que pode e o que não pode gastar. A ressaca em 2009 será grande, com ameaça de desemprego como conseqüência do esfriamento da construção civil, com falta de novos investimentos e conseqüente desemprego e a inadimplência em grande escala, a começar pelos financiamentos generosos de automóveis.

Nestas circunstâncias conservar o capital de giro será vital para a sobrevivência e todas as ações empresariais devem ser focalizadas sobre este aspecto. O que neste cenário representa uma produção enxuta, a diminuição de giro de mercadoria dentro da fábrica, corte drástico de todas as despesas supérfluas, o empresariado poderia apreender com humildes donas de casas cujos maridos perderam o emprego.

A melhor amostra, se esta nova filosofia empresarial será levada a sério, veremos na próxima Couromoda em Janeiro. Teremos estandes de tirar fôlego? Viagens pagas aos clientes, representantes e seus familiares de todo o Brasil? Eventos em casas noturnas de luxo – fingindo que está tudo em ordem e estamos vivendo no melhor dos mundos?

A fatura das omissões nas gestões está sendo apresentada. Que não haja ilusões: será cobrada com rigor e sem complacência.

Zdenek Pracuch