O FUTURO ESTÁ NOS ALCANÇANDO

Entre as muitas virtudes da Francal, uma tem um valor muito especial para mim. Num único lugar a gente encontra muitos amigos e conhecidos, normalmente fora do alcance, condicionado pelo tempo e distancia. E, invariavelmente, depois de esgotada a ordem do dia, vem a pergunta: O que você acha, para onde está caminhando esta evolução? Qual é o rumo que a indústria deve tomar?

Observando o que aconteceu ou está acontecendo nos países com uma tradição mais longa que a nossa, as conclusões são palpáveis e de fácil dedução. Os vetores podem ser identificados como:

- Crescente escassez de couro;
- Aumento do custo de mão-de-obra;
- Uso de componentes pré-fabricados;
- Maior peso da indústria química – PU, PVC, EVA – elastômeros;
- Por um lado demanda de bens sofisticados;
- Por outro crescente número de pessoas necessitadas de calçar, mas de baixo poder aquisitivo.

O futuro da indústria de calçados está delineado nestas linhas. Explicando com poucas palavras teremos o seguinte quadro:

De um lado teremos as tradicionais indústrias tipo Franca ou Novo Hamburgo, com mão-de-obra intensiva, uso de materiais de alta qualidade, destinados aos mercados exigentes, de poder aquisitivo elevado.

De outro lado veremos o crescimento de indústrias, que através de componentes pré-fabricados, usando a tecnologia avançada, injetado, por exemplo, com uma racionalização levada aos extremos, que terão a incumbência de calçar os segmentos menos exigentes e de baixo nível aquisitivo.

Dependerá de cada empresário em que faixa de produção tentar-se-á situar. Não vejo muito futuro para aqueles que hoje estão tentando fazer um pouco de tudo a começar por tamancos femininos e terminar com botas para homem. Não vejo futuro também, para a fábrica que insiste em pulverizar os recursos fazendo um pouco de calçado colado, de mocassim, um pouco do blakeado e umas sandálias para completar.

O futuro que já está à nossa porta já está claramente definido: artesanato mecanizado, valorizado por materiais caros e mão-de-obra perfeita, de um lado, ou, indústrias especializadas, tecnologicamente na linha de frente, componentes pré-fabricados, mão-de-obra barata e a produção em massa, com preços ao alcance dos menos privilegiados.

Que cada um dos atingidos comece a escolher a sua posição, enquanto existe a margem para a escolha.

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A curiosidade deste texto acima está no fato de que foi escrito e publicado na edição do jornal Atualizado, editado pelo Comércio da Franca, em 18 de junho de 1978! Ou seja, há 34 aos atrás – quando muitos dos leitores desta coluna nem tinha nascido.

Não havia ainda globalização, exportação estava bem estabelecida e ainda havia possibilidade de adotar, com sucesso, a segunda alternativa sugerida na coluna. Esta hipótese de sobrevivência, ou seja, a produção em grandes quantidades de artigos populares nos foi tirada pelo tsunami oriental e pela evolução da economia global. Não quero me referir à crescente desindustrialização do Brasil, com fuga até de indústrias de calçados para regiões mais favoráveis à industrialização.

Sobrou a alternativa primeira, a que se refere aos produtos sofisticados, de grande valor agregado, com originalidade na criação e uma flexibilidade na adaptação quase que instantânea aos ditames a caprichos da moda. Temos todas as condições para, neste terreno, competir com a Itália ou a Espanha, onde esta modalidade já aprovou e está funcionando com sucesso, sem falar no mercado interno de maior poder aquisitivo.

Felizmente, já dá para identificar várias indústrias que já entenderam os sinais do tempo e estão adaptando a filosofia do negócio aos ditames do terceiro milênio. Olhar pelo retrovisor serve para avaliar o progresso, mas uma direção segura exige olhar pelo para-brisa.

Zdenek Pracuch
16/07/12