FUTUROLOGIA

Início do ano é sempre propício ao exercício de futurologia, à elaboração dos planos estratégicos e de planejamento de todos os aspectos de vida tanto pessoal como das de empresas. Nada a objetar. O planejamento é necessário, é vital, tanto para os indivíduos como para empresas.

O problema está em que se basear para planejar com eficiência, para o planejamento não se tornar um exercício de uma obrigação habitual, sem ser realmente útil na condução, tanto da vida pessoal, como a das empresas. De onde coletar os dados confiáveis, a quem ouvir? - Vamos deixar de lado o aspecto pessoal e vamos nos preocupar com o planejamento na vida das empresas.

O ano em curso promete ser um ano cheio de imprevistos, cheio de sustos de todos os lados. Tentar definir alguma orientação segura, acompanhando noticiário econômico  internacional ou doméstico, ler as avaliações dos economistas dos mais renomados e tentar estabelecer uma linha de conduta com base nestas opiniões, é pura perda de tempo.

A Folha de São Paulo publicou recentemente uma resenha das seis previsões do ministro Guido Mantega, no decorrer do ano de 2011 e concluiu que todas, todas as seis, estavam erradas. Ora, se o ministro da Fazenda, que podemos supor, tem as informações das mais privilegiadas, das mais abalizadas, não acertou uma única previsão sobre o desempenho da economia nacional, com que base nós, os pobres mortais, podemos pretender alguma previsão de valor? Tarefa impossível.

E agora? Vamos voar no meio da tempestade sem instrumentos? O último que tentou, o Air France acabou no fundo do Atlântico. Vamos pela intuição, confiando na boa sorte e acreditar piamente que “Deus é brasileiro”? - Não precisamos tornar nos fatalistas. Basta analisar com uma boa dose de bom senso o comportamento do meio econômico e social em que estamos e antecipar-nos ao desenvolvimento decorrente desta observação ao nosso alcance.

Quais são os fatos mais recentes? A diminuição de 23,12 % na criação de novos empregos em 2011. A crescente desindustrialização que por sua vez dificultará a criação de novos empregos. Aumento de inadimplência  familiar em 25,6 % contra o ano anterior. Queda na exportação de calçados de 13,2 % em 2011. E pela previsão dos dirigentes das entidades calçadistas (O Exclusivo, 16.1.2012), com a política cambial e “custo Brasil” sem nenhuma reforma necessária em vista, a queda vai continuar. E as barreiras para importação? Se o Brasil não consegue resolver a pauta com Argentina, dentro do Mercosul, o que de bom podemos esperar?

Os novos métodos de comercialização, do terceiro milênio, maior rapidez no atendimento dos pedidos e na reposição das vendas, atendimento intermitente e serviço através dos vendedores próprios, comércio eletrônico e assim por diante, dos quais tão poucos empresários até hoje se deram conta para se adaptar, irão dificultar mais ainda o escoamento da produção das fábricas.

A palavra chave é inovar. Sair da zona de conforto, trilhar novos caminhos, mas principalmente, criar a coragem de ousar. E há tanta coisa para ser feita! Dentro e fora das fábricas. Dentro das fábricas há necessidade de racionalizar e economizar. Evitar desperdícios de toda ordem, principalmente do tempo. Racionalizar a logística da movimentação de mercadoria dentro do processo produtivo. Estudar e re-estudar os lançamentos de modelos novos sob os critérios de economia de materiais e de produtividade. Estudar a conveniência de lançamentos de grande número de modelos de uma vez, as famosas coleções, contra os lançamentos periódicos, espaçados, de modelos melhor estudados e perfeitamente operacionais.

Estudar e introduzir os novos métodos de comercialização, através de vendedores próprios, residentes dentro das áreas a serem atendidas, com quotas de vendas por linhas de modelos a serem cumpridas semanalmente. Visitas semanais aos clientes como ajuda de serviço, de treinamento de balconistas, de vitrinismo, de levantamento de estoques etc. -  Introduzir o comércio eletrônico para atingir as áreas mais afastadas ou até hoje mal atendidas.

Como disse: há tanta coisa a ser feita, que um empresário, que se envolver para introduzir e atualizar a sua ação, nem terá tempo de se preocupar com a situação econômica desfavorável, porque a situação econômica dele será favorecida pelas ações tomadas justamente para evitar que seja atingido.

Nossas fábricas, em geral, são modelos de desperdício. Até hoje temos indústrias consideradas grandes, que nem o cálculo de custo têm. Como, então, esperar que terão controle de gastos, principalmente de matéria prima ou de operacionalidade no sentido de economias dentro da produção? - Não adianta esperar o governo baixar medidas de proteção à indústria nacional, se esta não se protege a si mesma e deixa perpetuar os maus hábitos e costumes do século passado, querendo prosperar no terceiro milênio?

A organização internacional pró-negócios Conference Board comparou os dados da produtividade do trabalho em 2011 da China com a do Brasil, ou seja, 2,4 % do Brasil contra os 7,9 % da China e diz “que os ganhos de produtividade do trabalho no Brasil cresceram muito mais do crescimento econômico do que de avanços tecnológicos ou de inovação.” Palavras do Bart VanArk economista-chefe do Conference Board (Exame de 16.11.2011).

Não é preciso dizer mais nada. Palavras abalizadas de um observar objetivo. O que diria se observasse mais de perto somente a indústria de calçados?

Zdenek Pracuch
13/02/12