DISPUTA ENTRE OS GIGANTES DO CALÇADO
A China tem monopolizado a atenção do mundo inteiro, sob todos os aspectos. Não só do ponto de vista da indústria de calçados. Não faz diferença em pegar um jornal ou uma revista brasileira, americana, alemã, italiana ou sueca, o infalível artigo sobre a China está lá. Conforme comprovou a última pesquisa sobre o ensino, com certeza, muitos brasileiros não saberiam localizar a China sobre um Mapa Mundi, mas já leram ou ouviram referência sobre este País.
Com esta situação o nascimento de um outro gigante ficou um pouco ofuscado. Refiro me à Índia. A Índia com a segunda maior população do mundo, com uma cultura milenar, uma colcha de retalhos de etnias, línguas e costumes, terra de castas, onde ainda existe uma pobreza indescritível, este gigante está acordando.
Graças á herança colonial inglesa, a Índia tem hoje uma boa parte de população que teve acesso a uma educação primorosa. Não é atoa que as multinacionais ou operadoras de cartões de crédito tem o atendimento aos clientes do mundo inteiro localizado na Índia, porque o inglês, depois do hindi é o idioma mais falado por lá. Isto tem reflexos tanto na vida social como na vida empresarial.
Nós, da área calçadista, só podemos dar um suspiro invejoso, quando foi noticiado que o governo indiano vai patrocinar um programa do Centro Nacional de Competitividade Manufatureira para treinamento na área da indústria de calçados para criação de 300.000 empregos nos próximos três anos. O programa tem por objetivo proporcionar 92 % de empregos ás pessoas de pequena ou nenhuma qualificação profissional, 1% para treinamento empresarial dentro da problemática da indústria de calçados, ou sejam 3.000 postos e 7 % equivalentes a 21.000 empregos para formação de quadros de chefia, ou de líderes, como agora é politicamente correto chamar os chefes de seções.
Nada mais acertado do que este passo. Sei muito bem, por experiência própria o que significa uma boa educação e um bom treinamento profissional. Nos meus contatos diários com a indústria de calçados, posso avaliar que falta enorme essa educação, esse treinamento faz.
A Índia está nos dando uma aula de planejamento a médio e longo prazo. É uma lição aos nossos representantes classistas e aos nossos governantes sempre preocupados com retorno imediato, até antecipado, se possível for, em qualquer investimento de interesse público.
As diferenças de rendimentos de classes indianas são muito piores que as brasileiras. No entanto, em vez de demagogia barata como empréstimos subsidiados com juros baixos, ou aumento de taxas para dificultar as importações, os indianos planejam ações para médio e longo prazo, com êxito garantido, porque estão investindo na infraestrutura a partir do elemento humano.
O que pode resolver uma linha de crédito para uma indústria em crise? Significa, que o infeliz do empresário, que vai pegar este empréstimo, vai falir mais depressa. – O que resolve aumentar as taxas de importação do calçado, quando o subfaturamento campeia solto, como a Polícia Federal descobriu recentemente no caso dos softwares e computadores. Enquanto tivermos linha verde e vermelha na liberação dos containers, os importadores, com alma de jogadores irão arriscar a importação, quase sem risco, porque sabem que só uma porcentagem mínima dos containers será aberta para fiscalização.
Os indianos, mais pragmáticos vão á luta preparando suas forças para serem competitivas, treinadas e capazes de concorrer com os chineses. Ou seja, a “Arte de Guerra” novamente sendo aplicada. A Índia já nos tirou o segundo lugar de maior produtor de calçados depois da China. A mão-de-obra indiana é mais barata que a chinesa. A tradição indiana de trabalho com couro é milenar e, para melhorar a posição indiana, contrariamente a China, a Índia é grande produtora de couros de vários tipos.
A meta estabelecida pela Confederação Indiana de Indústrias (CII) é de sete bilhões de dólares em exportação de couro e correlatos em 2012. Quanto disso encontrará o caminho para o Brasil? A ameaça só não se tornará mais perigosa, porque do mesmo modo como na China, na Índia também o nível de vida está subindo e o mercado interno cresce diminuindo assim o potencial exportador.
Já que não podemos, praticamente, fazer nada em termos de planejamento setorial pelos poderes públicos, cabe a cada um fazer a sua lição de casa: adotar métodos racionais de produção, evitar desperdícios de todo tipo, ter originalidade na criação dos produtos, ter qualidade indiscutível e os serviços de atendimento do primeiríssimo mundo. Não é pouco, mas quem fizer isto sairá ileso desta briga entre o mar e o rochedo, que está se anunciando.
Zdenek Pracuch