O FIM DA ERA DOS GIGANTES
O Comércio da Franca, na sua edição de 23 de março de 2008, publicou uma atualizadíssima reportagem da Chefe da Reportagem Priscilla Sales com o título O fim da era dos gigantes, onde historiou o desaparecimento de empresas, outrora paradigmas da indústria de calçados na cidade de Franca.
Muita gente se pergunta: O que deu errado? Porque isto está acontecendo? O que isto vai representar para a cidade? – A resposta não é simples e as causas são múltiplas, mas com o desfecho comum – fechamento das empresas e o fantasma de desemprego para centenas de famílias. Na maioria dos casos as empresas foram vítimas do próprio crescimento, do tamanho que atingiram e para o qual não foram preparadas estruturalmente.
A maior causa da situação precária foi a falta de controles aliada à ilusão de mercado cativo e fácil. Falta de estruturas e de controles deve ser considerada como a causa principal. Até hoje, entre as empresas menores, quantas possuem mecanismos de controle de resultados, de acompanhamento do capital de giro, do planejamento de investimentos, para ficar só na área de controladoria financeira?
Quando descemos para o chão da fábrica a situação é mais calamitosa ainda. Quantos empresários são capazes de controlar desperdícios de matéria prima, de tempos perdidos de mão-de-obra, de energia, de logística dentro da empresa eivada de perdas etc. etc...
Nunca foi tão válida a observação que Thomas Bata Jr. fez quando comentou a situação da indústria Francana, que conheceu atendendo ao convite do Wilson da Samello, na década dos anos setenta: “Será que esse pessoal ainda não entendeu que a nossa indústria é pobre? Que ela é feita de milímetros, gramas e segundos? E, ai de quem desprezar isso! – Ainda continuam construindo aquelas fábricas monumentais de tijolinhos à vista com caixilhos de alumínio anodizado, etc.?”
Outro fator que ajuda a explicar a crise pela qual passam os grandes é o gigantismo aliado à obsolescência, tanto do equipamento, como de métodos e principalmente da mentalidade. “Sempre deu certo, sempre funcionou assim – para que mudar?” Mas quem diz isso, não sai da Internet e não larga o celular. Será que sempre foi assim?
O prof. Hélio Braga observa com acerto, que os grandes – Nike ou Arezzo – não possuem hoje fábricas próprias. A própria Bata, quando desativa uma unidade obsoleta, contrata serviços de terceiros, menores, o que lhe proporciona maior flexibilidade e disponibilidade do capital não empatado em tijolos, cimento ou aço. – Acompanhei a desmontagem da unidade de calçados de segurança em Peñaflor no Chile e em Best na Holanda e a transferência de boa parte de produção para a Marluvas no Brasil e para uma nova fábrica, adivinhem onde? Na China.
A sobrevivência da indústria de calçados em Franca se dará pelas fábricas menores, especializadas em explorar nichos específicos do mercado, criando uma clientela fiel e cativa. Costumo dizer que a ordem dos tempos é: “Trabalhar menos e ganhar mais!”. Como? Através de excepcional qualidade, originalidade e criatividade e pela excelência de serviços para cativar os clientes, afim de torná-los fiéis à marca. – Nada de pessimismo. - Nem tudo está perdido, mas é necessário procurar novos caminhos que, até já estão bem definidos.
Nos comentários, e na própria reportagem acima citada, não achei nenhuma referência à atuação desastrosa do sindicato dos empregados na indústria de calçados de Franca. Boa parte das dificuldades e da falta de competitividade que atravessa a indústria francana deriva da atuação e de exigências fora da realidade econômica, por parte dos sindicalistas francanos, principalmente no contexto global do panorama da indústria de calçados.
Quem trabalhou na indústria de Franca na década dos sessenta, sabe que os dirigentes sindicais eram treinados em Cuba, naquela época o sinônimo do progresso socialista. – Bem vimos todos no que deu. - Mas os dirigentes voltavam de lá embuídos de idéias revolucionárias. Um pouco antes da revolução de 1964, circulavam em Franca as listas dos empresários a serem enforcados (!) até com detalhes em qual dos postes na rua. Vi a lista com nome do Wilson S. Mello. – Curioso foi, que quando Wilson ofereceu passagens, só de ida, para quem quisesse sair ou para Cuba ou para Rússia, não apareceu ninguém, embora entre os enforcadores estava um sobrinho da parte materna, parente dele!
Mas voltando ao assunto principal “O fim da era dos gigantes”. Não há uma causa única da decadência das grandes fábricas. Problema da troca de gerações no comando, falta de controles, obsolescência tanto de métodos, de tecnologias e principalmente das mentalidades, atuação desastrada dos sindicatos (inclusive patronal, sempre cedendo, com medo de perder pedidos devido a ameaças de greves), aposta exagerada na exportação com perda de presença no mercado doméstico – cada uma destas causas contribuiu para as dificuldades atualmente vividas pelo setor.
Há saída, sim, desde que haja conscientização de que mudar é preciso, que a mudança é saudável e é possível. Concentração e especialização num segmento do mercado, corte de todos os desperdícios, métodos modernos de trabalho, tecnologias mais avançadas, uso de materiais novos, atraentes para o público – tudo isso representa um leque de opções a disposição dos empresários que aceitam desafios e cuja primeira pergunta nunca é a famosa: “Alguém já fez ou já está fazendo isso?”.
Zdenek Pracuch