IMEDIATISMO
Tenho a oportunidade de assistir e colaborar no início de planejamento estratégico, do planejamento real a médio e longo prazo, em algumas empresas do setor calçadista. Isto até pode despertar certa esperança de que, finalmente, o imediatismo, que domina este setor industrial, está acabando.
Já não era sem tempo. A falta de algum tipo de planejamento e de previsões, faz parte da índole brasileira, que vive convencida, de que sempre “se pode dar um jeito”. Para que esquentar com algo que pode ou não vir a acontecer? Se isto pode valer para o comportamento pessoal, tudo bem, cada um vive a vida do jeito que bem entende.
Mas quando se trata de empresas ou de empresários, de cujas decisões dependem o bem estar de centenas de pessoas entre os funcionários e seus familiares, a falta de planejamento ou o excesso de imprevidência ganha contornos quase que criminais. Torna se questão social de profundo alcance.
Exatamente este momento está agora vivendo a indústria calçadista. Depois da euforia dos resultados do ano passado estamos assistindo a um esfriamento do mercado e há setores seriamente ameaçados de uma re-estruturação profunda, que pode terminar em fechamento de um número importante de indústrias, consideradas sólidas e bem posicionadas no mercado.
Porque está acontecendo isso? Um dos fatores importantes, senão o mais importante é a absoluta falta de determinação para a orientação da empresa para dizer a que veio e qual é a posição que quer ocupar no mercado ou em seu serviço aos clientes. A tendência para o foco a curto prazo é um dos maiores pecados. O imediatismo das decisões, tomados no calor da batalha diária com a concorrência pelas vendas, orienta as decisões que comprometem o futuro da empresa, as vezes irremediavelmente.
A tendência para simplificar o problema, confiando no jeitinho é endêmica. Mas, num organismo complexo, como uma empresa, pode ser extremamente danosa. Uma empresa é composta por dezenas de pessoas de diferentes graus de instrução, de idades, de educação etc. e cada uma delas irá reagir a situações novas diferentemente e muitas vezes contra a instrução emitida, pela simples ignorância ou falta de esclarecimento. Como pode um dirigente tentar instruir o seu pessoal, se ele mesmo até há pouquinho não sabia o que vai fazer e tomou decisão na última hora, na base de “dar jeito”?
Uma das decisões mais dolorosas para um empresário pode ser a de decidir pela diminuição da produção. Porque no folclore do empresário nacional o crescimento contínuo é mandamento número um. Mas se o empresário analisar o mercado, concorrentes, as suas possibilidades próprias de expansão, de capital de giro, de pessoas disponíveis que possam ajudar nesta expansão, muitas vezes irá descobrir, ainda em tempo, que crescer por crescer é filosofia de células cancerosas.
Planejar o crescimento via sofisticação do produto, via melhores idéias de estilistas, uso de materiais de primeiríssima qualidade, vendas para publico selecionado, valorizando deste modo ainda mais a marca e o produto, pode ser o caminho de salvação de muitas indústrias, que hoje estão confusas a procura do rumo a tomar.
Se decidirem competir com os orientais, pelo preço baixo, muito bem, neste caso racionalizem a produção com adoção de tecnologias condizentes, evitem qualquer tipo de desperdícios, apurem a logística, criem tipo de vendas com entrega expressa, baseada nos métodos da Souza Cruz ou AmBev, apelem para originalidade.
Mas, tenham um plano! Planejem pelo amor de Deus! Parem de viver ao sabor dos ventos, orientados pelo último telefonema do representante comercial que, em primeiro lugar, defende os interesses dele! Tenham um programa – seja ele de sofisticação ou de simplificação, mas determinem um rumo e sigam-no, depois de estudar todos os prós e contras e todas as alternativas a que se propõem.
Há uma plêiade de alternativas que merecem estudo para nos orientar na escolha de rumo. Mas, de saída, podemos apontar como a pior solução aquela alternativa, que nos sugere o lucro imediato, o sucesso imediato, tão preferido pelos altos executivos, porque lhes traz bônus, mas que é uma opção perigosa para a perenidade e a continuidade dos negócios ou da sobrevivência da própria empresa.
Não é fácil efetuar o planejamento estratégico digno deste nome. Por isso há tão poucas pessoas credenciadas para oferecer este trabalho, que não mostra, à primeira vista, como é difícil. Mas este trabalho é cada vez mais necessário, principalmente no caso das empresas em fase de crescimento, ou que se encontram na encruzilhada do – crescer, mas como e para onde?
Zdenek Pracuch
04/07/11