IMITAR É COPIAR ?

Muitas vezes os estilistas e modelistas são acusados de copiadores, de plagiadores de criações de outros. Não quero defender os copiadores de plantão, são conhecidos os casos de representantes comerciais, que usam as amostras para contratar um produtor pouco escrupuloso para fazer a cópia fiel, por um preço mais barato. Se não for caso para a polícia, seguramente é um estelionato intelectual, desonesto.

Acabo de ler um livro que aborda estas questões de um ângulo novo e surpreendente. Trata-se do livro de David Kord Murray: Borrowing Brilliance que parte do pressuposto de que não existe criação propriamente dita, mas uma evolução de uma idéia já existente, que serve de partida, muitas vezes sob aspecto completamente diferente, para a criação de “algo novo”.

Apreendi na escola da Bata Shoe Corporation, que Tomás Bata, fundador do império de calçados, se inspirou na criação das hoje banalizadas “esteiras”, quando se empregou como operário na fábrica de Henry Ford em Dearborn, nos idos anos vinte do século passado, para descobrir como funcionam as linhas de montagem. Aprendi, apliquei o conhecimento, inclusive em Franca, dei palestras e tudo mais, para descobrir na leitura deste livro, que o Henry Ford não foi o idealizador da idéia de linha de montagem. O próprio Ford se inspirou nos trilhos de frigoríficos que levavam os meios de bois para cada uma das diferentes operações de corte e desossamento.

O walkman que revolucionou a reprodução de fitas em som estereofônico no ano de 1978 nasceu, quando os engenheiros da Sony apresentaram a Masaru Ibuka, o então presidente da Sony, um gravador portátil. Quando o equipou com um par de pequenos fones de ouvido, percebeu que tinha em mãos um componente potencial para resolver não o problema de gravação, mas de reprodução!

Querem melhor exemplo que a história da aviação? Um Jumbo da Boeing é cópia do 14-bis ou um produto resultado da evolução de uma idéia genial? – O episódio da visita do hoje lendário Steve Jobs aos laboratórios de Centro de Pesquisas da Xerox  em Palo Alto, Califórnia, é sintomático. Segundo Larry Tessler, o cientista chefe que conduziu a visita, achou que o pessoal da Apple era “um bando de hackers que não entendia de ciência de computação. Que eles não compreenderiam o que o Centro estava desenvolvendo e que veriam apenas alguns desenhos bonitos dançando na tela”.

“Mostrei a eles como com um objeto mecânico podia mexer nos ícones e na interface da tela e quando o Jobs começou ver as coisas que eu podia fazer com a tela, ficou observando cerca de um minuto e saiu pulando em redor da sala e gritando sozinho: Porque vocês não estão fazendo nada parecido com isso? Isso é o máximo! É revolucionário! – Nenhuma outra pessoa que já tinha visto isso ficou impressionada. Nem meus superiores. Ao final da demonstração, estive convencido de que sairia da Xerox e iria para Apple.” -  Assim aconteceu e foi lavrada a certidão de nascimento dos iPad´s.

Qual é a moral destes pequenos episódios, pequenos, mas que tiveram um impacto violento sobre a sociedade humana? Que, dificilmente, ou melhor, nunca encontraremos uma idéia “original”. Analisando o acontecido sempre acharemos uma sementinha de uma idéia que já foi plantada por alguém outro, até sob outra forma, em outros tempos, com finalidade diferente, mas que serviu de gatilho para uma novidade.

Mas, e a indústria de calçados? Basta parar e analisar o que já presenciamos no decorrer de nossas vidas. Não precisamos ir tão longe até encontrar o homem das cavernas protegendo os pés dele com pedaços de peles dos animais abatidos. Basta comparar o método de fazer calçado da primeira metade do século passado com a época atual. Da sola preparada artesanalmente, pé por pé, desde o corte até a costura do solado, a fresa, acabamento e polimento com cera, chegamos à injeção direta ou ao menos para solas pré-fabricadas.          

E os materiais? Quando trouxe nos anos setenta dos Estados Unidos (presente do mr. Katz) o primeiro par  feito com sintético Corfam, produto da DuPont e gastei a sola, o pessoal da Pestalozzi, que eu gerenciava na época, quis fazer um favor e colocar sola nova, assim o fizeram. Só que nunca mais pude calçar o sapato. Montaram o calçado como se fosse couro, esticaram o Corfam e quando retiraram a forma, o material voltou ao tamanho que tinha antes de ser esticado e não havia pé que pudesse entrar no calçado.

Hoje mais de setenta por cento do calçado no Brasil é feito de materiais artificiais, muitas vezes imitando couro com tamanha perfeição, que clientes são induzidos a comprar o “gato por lebre”. – O progresso não para. Mas quem é de fato criador, criando algo no vácuo, do zero, onde nada antes existia? Nem na indústria de calçados e nem em indústria alguma. Tudo já tem algum precedente. Às vezes até um precedente oposto, mas ele existe.

E lá vamos nós convivendo com a antiga Lei do Lavoisier ..........

Zdenek Pracuch
28/11/11