CUSTOS INÚTEIS

Uma das empresas a quem presto assistência voltou da Francal preocupada com os preços oferecidos pela concorrente que produz artigos da mesma categoria e com a mesma qualidade, só que com um preço bem abaixo do praticado pela minha cliente. Por uma destas coincidências da vida, acontece que presto minha assistência também para a firma concorrente.

“Como é possível, praticar um preço tão baixo?” me perguntou o dono da primeira empresa. Naturalmente fiquei devendo a resposta em nome da confidencialidade e da ética (êta palavra desacreditada!!) profissional. O resultado é que no momento, nesta empresa estamos empenhados num programa, a meu ver, também necessário na grande maioria das empresas calçadistas, ou seja, rever os custos e a formação do preço de venda.

A quase totalidade dos nossos empresários, hoje, são pessoas jovens, ao mesmo tempo, na quase totalidade, com falta de um preparo formal para as funções de dirigentes ou, como é hábito nos outros países e nunca se faz no Brasil, mandar os jovens para fazer estágios nas empresas maiores e bem estruturadas, para apreender noções do comando. Com a falta destes conhecimentos e na ânsia de acertar, os nossos jovens cometem pecados organizacionais que, em muitas ocasiões, levam até ao fim prematuro do empreendimento.

Mas, voltemos ao objetivo desta coluna – custos inúteis. Durante a análise, além de administração de materiais falha, com cálculo de consumo irreal, com desperdícios pouco controlados e não corrigidos e que representam falha técnica, fácil de ser implantada e corrigida, foram descobertas falhas estruturais, administrativas.

A principal é, novamente digo, comum em quase todas as empresas calçadistas, o super-dimensionamento do aparelho administrativo, em outras palavras, excesso de funcionários improdutivos em relação aos funcionários produtivos. Quem é funcionário produtivo? É o funcionário por cujo trabalho direto é acrescentado valor ao produto. Uma coladeira, um cortador, um apontador de sola. Quem é o funcionário improdutivo? Aquele cujo trabalho, por mais importante que possa parecer, não acrescenta diretamente nenhum valor ao produto. Exemplos? Almoxarife, recepcionista, modelista, faxineira etc. Embora tenham a sua importância e muitas vezes até sejam muito importantes, na ausência deles a produção não vai parar e não será produzido um par a menos.

Temos hoje parâmetros mundiais para estes dados no âmbito global e já adaptados à realidade brasileira com a sua complexa legislação trabalhista e tributária. No Brasil é absolutamente impensável uma situação que encontrei na Finlândia, numa fábrica de  botas altas femininas com produção de 3.000 pares diários, com 4 (quatro) pessoas na administração e outras 4 (quatro) nos serviços correlatos com produção – mecânico, almoxarife, despacho e limpeza. E pai e filho na direção, mas executando funções rotineiras. No caso do Brasil, nas fábricas de calçados temos hoje, seguramente, pelo menos 50 % de funcionários improdutivos a mais do que o necessário e justificável.

Quando apareceram os primeiros computadores alguém decretou desemprego em massa dos funcionários administrativos. Aconteceu justamente o contrário. Serviço administrativo aumentou. Produtivamente? Que nada. Continua a mesma produção dos papéis, só que depois de elaborados são digitados e processados pela informática.  Hoje temos montanhas de relatórios, com excesso de informações, que ninguém tem tempo de ler e digerir. Temos muitos dados e pouco tempo ou até falta de conhecimentos mínimos para aproveita-los.

Além dos salários, em regra mais altos do que os pagos ao pessoal da produção, o que tudo isto representa em custos com equipamento de informática, impressão, cartuchos de tinta, espaço no escritório, iluminação e energia do equipamento – sim, tudo isso são custos, que uma empresa bem estruturada não tem e que encarecem o preço do nosso produto. Enquanto acharmos alguém disposto a pagar o nosso preço, amém, mas e no dia que não acharemos ninguém mais? Só neste dia que vamos procurar soluções?

Já escrevi muitas vezes: única commodity, sempre escassa e que não existe no mercado é o TEMPO! - A penalidade pelo desperdício deste bem é cruel.

Zdenek Pracuch