KAZAQUISTÃO E A EXPORTAÇÃO DE CALÇADOS
De um amigo, correspondente no estrangeiro, recebi a notícia com um pedido de comentário, sobre a ida de um grupo de 40 empresários brasileiros para a ex-república do Império Soviético – Kazaquistão. A delegação deve ser chefiada pelo chefe do gabinete do Ministério de Indústria e Comércio, senhor Ivan Ramalho.
O interessante na notícia é, aliás, se há algum interesse sobre um passeio turístico para, como dizem americanos, “para lugar nenhum”, que na apresentação de produtos brasileiros “básicos” serão incluídos também os calçados. Na capital Astana estão programados encontros com compradores e será mantido um seminário.
Quem tiver interesse sobre o Kazaquistão, pode se informar no Google, para ver que a salvação das nossas exportações, em franca queda, poderia ser talvez a Sibéria. Já há tempos comentei outra excursão turística para vender calçados na Noruega, cuja população corresponde ao dobro da que vive na área metropolitana de Belo Horizonte. Sem falar na diferença de clima, para o qual, realmente, em matéria de calçados pouco temos a oferecer.
A salvação da indústria de calçados do Brasil não está mais na exportação. Este capitulo foi fechado definitivamente. Vamos nos conformar com o fato de que os mercados externos, quantitativos, foram perdidos para sempre. – Reparem que disse quantitativamente. Podemos exportar, isso sim, a qualidade da nossa mão-de-obra, a nossa criatividade, desde que invistamos no desenho, ou melhor, no material humano capaz de suprir esta função de criação e desenho.
O fato é que, se a Internet sair do ar, de repente os nossos modelistas vão descobrir que lhes falta a inspiração e idéias. Conheço pessoas, que passam as noites navegando pela web em busca de novidades, que depois adaptam com maior ou menor sucesso aos materiais que tem a mão. E como a ordem é economizar, desenham os modelos inspirados sobre as formas inadequadas ("Você está doido, mais uma forma nova? Assim você me quebra!"), modelam dois tamanhos em um só, para economizar matrizes de alta freqüência e fazem todos os tipos de gambiarras. Será que é assim que vamos competir com países de mão-de-obra barata, mas com tecnologia de última geração?
Não falo da competição externa. Refiro-me ao mercado interno, mercado brasileiro onde vamos travar a luta no campo de casa contra visitantes. Há muita coisa que pode e deve ser melhorada na indústria brasileira de calçados. A pergunta que se faz – será que temos tempo suficiente para fazer tudo o que é necessário?
A Índia começou em outubro do ano passado um programa governamental de apoio à indústria de couros e calçados, ameaçada pela concorrência chinesa de tomar os espaços globais com a sua exportação agressiva. Este programa destinou 300 milhões de dólares, o que representa uma fortuna nas condições indianas, para o treinamento de 300.000 operários especializados para couros e calçados, 20.000 chefes ou líderes como hoje é politicamente correto chamar os encarregados de produção e 3.000 empresários, que ou já atuam, ou estão preparando a sua entrada para o comércio global.
O que nos temos a oferecer contra isso? Ano passado o governo anunciou com grande estardalhaço a criação de 212 novas escolas técnicas de segundo grau, mas NENHUMA para couros e calçados. Fica por conta dos cursos do SENAI criar a elite para a nossa indústria. Cursos dados por instrutores que só vão perpetuar a obsolescência das atuais tecnologias usadas nas fábricas.
Mostrei na semana passada numa fábrica de calçado masculino de altíssima categoria que não há necessidade de bater um prego e abrir um buraco no calcanhar do calçado, para posicionar o calçado na forma, afetando deste modo o visual e qualidade. Que no mundo se faz diferentemente. E provei o que sugeri. Resposta? Um dos envolvidos disse calmamente: “Aqui isso não dá certo.” Ficou por isso mesmo.
Mas quem sabe, os Kazacos não se incomodarão com esse pequeno detalhe de buraco no calcanhar e abriremos um mercado do tamanho respeitável para os nossos calçados. Esqueci de avisar que no Kazaquistão os invernos são rigorosos, duram longos meses e o calçado deve ser preparado para esta circunstancia.
Zdenek Pracuch