A QUESTIONÁVEL LIDERANÇA
Antigamente chamávamos chefes ou encarregados das seções nas indústrias aqueles que, hoje é politicamente correto, chamar de “Líderes”. Mas uma consulta a qualquer dicionário nos mostra que liderança envolve muito, muito mais do que uma simples chefia de um departamento.
Mais ainda na indústria de calçados que, historicamente se ressente da falta do preparo técnico e humano dos tais “líderes”. Não é culpa deles. Absolutamente, porque eles são as primeiras vítimas do sistema. Sem nenhum preparo técnico nem psicológico para conduzir os colegas subordinados, exige-se deles o cumprimento de resultados, qualidade e aplainar problemas surgidos dos relacionamentos humanos.
Não é pouco. Mais ainda levando se em conta a técnica de promocão, que promove para um posto destes, geralmente, um operário cumpridor dos deveres, assíduo, bom técnico, mas que prefere morder a língua a solicitar alguma correção na ação do seu antigo colega, a qual não se enquadraria nas regras da empresa ou exigências de qualidade.
Estou acostumado a fazer cursos, seminários e palestras a pedido dos empresários empenhados em melhorar o nível do seu segundo escalão. Por isso sei que a deficiência na instrução dos líderes é um mal, que existe no Brasil inteiro, do Sul ao Nordeste. Temos cursos profissionalizantes, SENAI está se esforçando para cobrir esta lacuna, mas os resultados estão longe de serem satisfatórios.
É fácil analisar por quê. Em primeiro lugar a seleção dos futuros líderes raramente é feita com base no perfil psicológico, traçado por um ou uma psicóloga que sabe o que uma indústria necessita neste sentido. Em segundo lugar, sempre é dada preferência à alguém “de dentro” a quem “nos conhecemos”. Em terceiro lugar, as nossas escolas técnicas e mesmo o SENAI, têm um currículo baseado nas tecnologias do século passado e uma imensa maioria dos instrutores ensina aquilo o que praticavam há vinte ou trinta anos atrás. Mas o mundo não parou de evoluir.
Me sinto muito a vontade de comentar isso, porque estudei e sou graduado pela única universidade de couro e calçados, que existia desde a primeira metade do século passado, onde a organização Bata treinava os seus futuros executivos. Hoje, após a derrota do comunismo a universidade foi reativada sob o nome de Universidade Tomas Bata, na cidade de Zlín, República Tcheca.
Na última campanha eleitoral todos os candidatos falavam em melhorar a educação. Pouco se falou em escolas profissionalizantes, escolas técnicas. A Índia deveria servir de exemplo pelo menos no que diz respeito à indústria de couro e de calçados. Em outubro de 2008 o governo indiano sentindo o avanço da China destinou 300 milhões de dólares para o ensino técnico de 300.000 mil operários qualificados, 20.000 “líderes” e 3.000 empresários, os que já estavam exportando ou aqueles que queriam entrar para este negócio. Trezentos milhões de dólares, nas condições indianas é uma verdadeira fortuna e, preparemo-nos, logo logo começaremos sentir o que isto representou.
Graças aos duzentos anos do domínio inglês sobre a Índia, o sistema escolar hoje é o do primeiro mundo, inglês é a segunda língua no meio de outras 300 línguas faladas e o resultado é que até os call-centers americanos, graças aos satélites operam atualmente via Índia! Sem falar na indústria de software que hoje rivaliza com a norte-americana e quando se fala de custo, coitados dos americanos!
Mas voltemos aos nossos líderes. Nas minhas viagens, durante a assistência às fábricas, posso presenciar a vontade dos nossos jovens, e nem os tão jovens, em aprender, em conhecer, em se aperfeiçoar a despeito de todas as dificuldades que sentem para encontrar os meios para aprendizado.
Desde os tempos de Napoleão é sabido que quem “toca” o exercito são os sub-oficiais, os sargentos. São o nosso segundo escalão, nossos líderes. A segunda guerra mundial foi uma confirmação total desta verdade. São os sargentos que estão 24 horas por dia em contato com a tropa, conhecem as suas virtudes e as suas fraquezas e conduzem os pelotões de acordo com este sentimento.
Os nossos “líderes”, aqueles que possuem a centelha de liderança em seu peito, fazem o mesmo papel. E este papel, hoje em dia, é cada vez mais importante, nesta competição global em que estamos enfiados até o pescoço. Onde a indústria de calçados brasileira terá que lutar cada vez mais para se firmar e não ser levada pelo tsunami das importações. Onde os termos “produtividade”, “economias”, “guerra aos desperdícios” e “custos” terão um valor cada vez mais crítico.
E quem vai conduzir esta batalha na linha de frente? Os “líderes” – é óbvio. Por isso é de importância vital para qualquer empresa que quer sobreviver, investir o mais que puder na seleção e no treinamento do seu corpo de sargentos. E que não demore. No treinamento não dá para queimar etapas.
Zdenek Pracuch