COURO E MEIO AMBIENTE
Um dos pontos negativos na elaboração do couro é a sua agressão ao meio ambiente. Isto não constitui novidade. Desde os tempos imemoriais já existia este estigma contra os curtidores e estes foram, geralmente, deslocados para fora dos muros das cidades fortificadas devido a forte poluição que o processo de curtimento causava. Não existiam curtientes químicos, todas as substâncias usadas no curtimento eram orgânicas e o forte cheiro causado pela decomposição fazia dos curtumes e dos curtidores uma vizinhança indesejável.
Nos tempos modernos, com a crescente conscientização ambiental, com novos processos de curtimento a presença dos curtumes é bem tolerada, embora os odores ainda costumam incomodar. A reclamação contra o couro dos animais agora tem outra origem. Ecologia e meio ambiente, embora plenamente justificáveis e necessários, no seu momento “xiita”, costumam se exceder e despertam reações dúbias, lá de onde deveria partir o apoio.
Até 13 de novembro deste ano o Fashion Institute of Technology (FIT) de Nova York exibe uma exposição denominada Eco-Fashion – Going Green (mais detalhes aqui - em ingles). Como curiosidade esta exposição é bastante interessante, principalmente, quando chama a atenção para criatividade na reutiliazação de peças de roupa caídas em desuso ou fora da moda atual.
O uso de corantes de base orgânica, tem a sua razão de ser defendida, e se for possível via produtividade substituir e baratear o uso de fibras naturais. A derme humana agradeceria, mas por motivos de disponibilidade e principalmente econômicos, dificilmente um dia chegaremos lá.
Onde parece que a exibição está atirando por cima do alvo, é quando fala sobre a crueldade para com os animais, relativa ao uso do couro animal. Até onde pode ser verificado, ninguém, em parte alguma do mundo, cria animais devido ao aproveitamento do couro. Seja que animal for, até avestruzes ou peixes, cujas peles são aproveitadas em alguns casos, estão sendo criados para produção de carne e o couro, nestes casos, é subproduto.
Quem deveria ser conscientizado sobre a crueldade com os animais, somos nos homens carnívoros, que não dispensamos dos nossos cardápios um bife ou um pernil. Os frigoríficos, com certeza tem uma renda extra com este subproduto que é o couro, mas no computo geral, o valor do couro não tem influencia econômica bastante para afetar o preço do alimento.
O argumento sobre o uso de curtientes com base nos derivados do petróleo, os sulfetos altamente tóxicos ou de minerais pesados que não se decompõem na natureza tem sua razão, como fator que pode afetar a saúde humana. Mas este ponto já está sendo visto e corrigido como, por exemplo, pela recente portaria da União Européia, proibindo importação de artigos de couro ou de calçados, com teor de cromo hexa-valente superior a 13 mg por um quilo de massa. Duvido que alguém possa usar um calçado ou roupa pelo tempo suficiente para criar um câncer de pele, por exemplo, mas é louvável a preocupação de evitar todos os perigos daí decorrentes.
A alternativa para o uso de materiais sintéticos para substituir o couro não é válida, porque na sua absoluta maioria estes são produzidos com base nos derivados de petróleo e não são biodegradáveis.
Uma alternativa para substituir o couro, embora possamos considerar só como um exemplo da criatividade humana, porque para efeitos práticos não significa nada, é o uso de couro artificial feito de microfibra. Os calçados da marca norte-americana Charmoné são fabricados (uma parte no Brasil) desta microfibra, que é biodegradável.
Há anos atrás, quando a Du Pont lançou o Corfam (mais detalhes aqui - em ingles) de saudosa memória, o primeiro material sintético imitando o couro, os entusiastas decretaram a morte do couro natural. Mas não demorou muito a descoberta, que o Corfam, embora mais prático na limpeza, manutenção e principalmente no aproveitamento econômico durante a produção, não podia de modo algum substituir o couro, porque era desconfortável no uso. Aquecia os pés em demasia e não absorvia a umidade exsudada pelos pés.
O mesmo destino tinha a camisa “Volta ao Mundo” lançada pela Valisiére. Os mais idosos com certeza lembram dela e quem a comprou e usou, lembra dela com certeza absoluta. Era feita de nylon e não absorvia uma gota de suor sequer. – O mérito dela era que conseguiu valorizar as camisas e roupas feitas de fibras orgânicas, ou pelo menos de um “mix” de fibras que ajudavam na absorção da umidade.
Recentemente tivemos notícia sobre um mocassim de 5.500 anos de idade (mais detalhes aqui), encontrado numa gruta da Armênia. É preciso dizer mais? O couro é e permanecerá couro.
Zdenek Pracuch