MEXAM-SE !
A situação da indústria de calçados brasileira tende a se agravar no decorrer dos próximos anos, devido a pressão dos importados, a queda nas exportações, o famoso “custo Brasil”, carga tributária excessiva, Leis Trabalhistas obsoletas na contramão do terceiro milênio. Sem falar na falta de operários qualificados e na deterioração da moral de trabalho que todo gerente da produção sente diariamente na própria pele.
Mas o que espanta é a imobilidade, a passividade dos responsáveis pelas indústrias, diante da situação que está cada vez mais clara, cada vez mais presente. O que estão esperando? Que as Leis da economia sejam revogadas? Que o onipotente governo vai baixar uma legislação que vai proteger a obsolescência e acomodação reinante no seio da indústria calçadista?
Há um número muito grande de iniciativas que um empresário pode tomar para atenuar ou até anular os efeitos daquilo o que enumerei acima. Mas é necessário sair dos trilhos batidos durante decênios e trilhar caminhos novos. Novos métodos de trabalho, novas tecnologias, economias (como se desperdiça na nossa indústria!) de tudo e em tudo. Vou repetir até a exaustão as palavras do Rei dos Calçados Tomás Bata: Nossa indústria é uma indústria pobre! Ela é feita de milímetros, gramas e segundos! E ai de quem desprezar isto!
Hoje já dá para identificar com bastante precisão o que deve ser feito para enfrentar o tsunami oriental. A guerra de preços já perdemos. Quem apelar para se manter no mercado via preços baixos, barateando produto até atingir os preços vis, já saiu do negócio sem o perceber. Será só questão de tempo quando a empresa será fechada. O caminho não é este. Para sobreviver devemos ter:
1 -
Um produto de qualidade indiscutível;
2 -
Um produto original, com criatividade procurar nichos específicos do mercado;
3 -
Racionalizar a produção com giro de mercadoria em questão de horas e não de semanas como ocorre hoje;
4 -
Serviço ao comprador sem nenhuma falha, desde o atendimento telefônico, ou e-mail até a solução de reclamações ou devoluções;
Estas sugestões abrangem praticamente só a área de produção, principalmente pela qualidade do produto, racionalização dos processos e rapidez no giro da mercadoria. Todos estes aspectos já foram solucionados há tempos e estão sendo aplicados por várias empresas (mas pouquíssimas de Franca), com sucesso.
Cabe a pergunta: Porque todas as empresas não estão se preocupando com isso e não adotam os métodos de produção condizentes com o terceiro milênio? E cadê a coragem? A acomodação é tão grande que, por exemplo, a indústria francana produz o calçado com os mesmos métodos do século passado, dos anos cinqüenta ou sessenta. Tirando uma ou outra máquina mais produtiva está tudo igual! Como vamos competir?
Acrescente se a isso a pouca qualificação da mão-de-obra e a profecia do declínio da indústria terá contornos da realidade que não irá demorar a chegar. Mas a obsolescência não reina só na área de produção. Temos lacunas enormes e estamos atrasados nas áreas de criatividade e de desenvolvimento de novos produtos e na comercialização dos mesmos.
Do mesmo modo como mudaram os métodos de produção, mudou também, no terceiro milênio e já estamos no segundo decênio, o modo de comercialização. Já escrevi várias vezes que os representantes comerciais são uma espécie em extinção. Assim como já deixaram de existir os caixeiros viajantes de saudosa memória. Que povoavam os trens da Mogiana e traziam junto com a mercadoria sempre uma nova coleção de piadas.
Quais são os rumos que estão presentes na comercialização do terceiro milênio?
1 -
Vendedores próprios com quotas de vendas a serem cumpridas;
2 -
Lojas próprias
3 -
Lojas franqueadas ou franquias parciais adotadas em 2010 pela Bata Shoe Corporation no mundo inteiro;
4 - Comércio eletrônico;
Cada um destes itens delineia uma intenção clara: encurtar o caminho entre produtor e o comprador final, um contato mais direto com o mercado para identificar as tendências e novos rumos da moda, uma reposição expressa dos produtos vendidos e, principalmente, o serviço individualizado, cada vez mais valorizado na sociedade massificada.
Deve existir uma sensibilidade apurada para as menores mudanças nos gostos e nas solicitações do mercado, com lançamentos freqüentes, não dependendo da época das Feiras, como acontece atualmente. Temos que estar sempre presentes atendendo da maneira mais rápida possível, as solicitações do mercado e aí terá que aparecer a nossa flexibilidade em produzir em questão de horas, o que antigamente levava semanas, na melhor das hipóteses.
Como se vê, os desafios são grandes, mas como dizem os chineses: Até a mais longa caminhada começa com um primeiro passo! Só que no caso das nossas empresas este primeiro passo está demorando a ser dado. E enquanto o tempo passa e passa e passa, e enquanto estamos esperando por um milagre, os nossos irmãos de olhos puxados estão conquistando cada vez mais terreno. A Índia já nos desalojou do segundo lugar de maiores produtores de calçados e, é bem capaz, que já este ano, a Indonésia nos fará passar para o quarto lugar no ranking mundial. É só esperar mais um pouco.
Zdenek Pracuch
24/10/11