MODELISTAS VS. PRODUÇÃO

Existe, desde que a indústria de calçados é indústria, uma luta surda entre os modelistas e o pessoal da produção. Um quer prevalecer sobre outro e provar a incapacidade técnica e, como sempre, a verdade está bem no meio do conflito.

Numa das fábricas onde presto assistência em Franca, o conselheiro do  encarregado da produção é meu amigo Augustin Mantovani, cuja carreira profissional acompanho desde o ano de 1960, quando trabalhei na Samello e Augustín era assistente de produção. Uma amizade respeitosa de mais de cinqüenta anos. Pessoalmente considero Augustin como, talvez, o último sapateiro verdadeiro, ainda em atividade, em Franca.

E com uma ponta de humor acompanho os embates dele com o modelista da fábrica que, até a contratação do Augustín, reinava absoluto e os erros da modelagem eram taxados de falta profissional do pessoal, tanto do pesponto, como da montagem. Com a contratação do Augustín a situação mudou e os erros estão identificados pela origem e também, nesta base, são corrigidos. E, infelizmente, muitos partem da modelagem.

A própria estrutura de empresas brasileiras de calçados contribui para este mal-estar. No mundo calçadista existe uma distinção rígida entre os modelistas criadores, poetas, que vivem no mundo da lua e criam as suas fantasias e os modelistas técnicos, que transformam estas criações em modelos factíveis, que possam ser executados dentro dos critérios de máxima economia e processamento racional industrial.

Diria, que os nossos modelistas são vítimas da situação e da estrutura (ou a falta de) que prevalece na formação dos mesmos. O único curso (além de alguns particulares) para a formação de modelistas é o do SENAI, que por melhor das boas vontades só pode ensinar os rudimentos daquilo o que de fato é uma boa modelagem técnica.

Sinto-me muito a vontade falar sobre o assunto, porque na Escola Bata de Trabalho (na ex-Tchecoslováquia), hoje Universidade Thomas Bata, tínhamos a cadeira de modelagem durante quatro anos por quatro horas semanais. E para ilustrar melhor o tipo do ensino tenho que frisar que, no primeiro ano, somente estudamos a anatomia do pé, com todos os seus ossos e cartilagens, músculos e tendões, a bio-mecânica do ato de andar, as possíveis deformações e irregularidades do pé e assim por diante. Só a partir do segundo ano, com base neste estudo, aprendíamos tudo sobre as formas e só depois começávamos o trabalho de modelagem técnica.

Não se ensinava a modelagem criativa, embora fossemos incentivados a tentar criar. Mas não era esta a finalidade. Embora posso discutir a modelagem com bastante embasamento teórico, nunca me aventurei para este campo. Exige uma especialização e dedicação fora do comum. Temos exemplos de excelentes modelistas técnicos como Carrasco no Rio Grande do Sul, ou Paco da saudosa Calçados Terra, ou criadores como Ruy Chaves, também do sul, que trabalhava no grupo Strassburger e outros mais em atividade hoje, que prefiro não nomear para por esquecimento, não desvalorizar trabalho dos que estão em atividade.

Mas, voltando à guerra não declarada do “último sapateiro” de Franca, com o colega modelista, Augustín teve dois grandes professores na área de produção. Os dois já estão do outro lado da vida. O primeiro, Wilson Sábio de Mello não precisa de apresentação. O outro João “Cachabá” Leopoldino, que era chefe de produção da Samello e de quem Augustín era assistente, era um grande profissional, embora uma pessoa com quem não era fácil de conviver, dado o perfeccionismo dele. Mas, como professor não podia haver melhor.

O ponto fraco dos modelistas que não tiveram um treinamento técnico profundo, é que na sua grande maioria desconhecem a parte econômica na elaboração dos modelos e não se preocupam com racionalização das operações. Estes dois pontos são vitais para a saúde econômica das empresas, hoje mais do que nunca, quando estamos começando a perder os mercados tanto externo como interno para as importações de países asiáticos, para onde se deslocou o centro da gravidade da indústria de calçados mundial.

Nunca a famosa frase do Thomas Bata: “Nossa indústria é uma indústria pobre. Ela é feita de milímetros, gramas e segundos. E ai de quem desprezar isso!” – era tão válida como nos dias de hoje. Estamos ou estaremos competindo com povos onde não se desperdiça nem um grão de arroz! Preciso fazer comparações?
 
Proponho um armistício nesta guerra não declarada entre os encarregados de produção e de modelistas (não se enganem, ela existe em TODAS as fábricas). Estamos navegando no mesmo barco. Se ele for para o fundo todos iremos junto. Porque, então, no lugar de tentar demonstrar que o outro está errado ou não sabe trabalhar, não colaborar um com o outro, e fazer modelos economicamente viáveis, fáceis de serem produzidos e assim racionalizar e aumentar a eficiência de nossas empresas?

Não há mais tempo a perder. A situação global está piorando e a indústria de calçados, infelizmente, não tem esta importância toda para merecer algum tratamento especial de proteção, quando os interesses econômicos, os realmente grandes, estão em jogo. Cabe a nos mesmos trabalhar com a máxima eficácia e nesta situação os amores próprios, feridos, não encontram lugar.

Zdenek Pracuch
26/09/11