MUDAR? PARA QUÊ?
As mudanças que estão ocorrendo em nossa volta e em nossas vidas são profundas, mas muitas vezes imperceptíveis e passam a fazer parte dos nossos hábitos e rotinas. O que acontece na vida pessoal, acontece do mesmo modo com o comportamento no mundo dos negócios, na vida empresarial, política, social e assim por diante.
A mesma observação pode ser aplicada à nossa indústria de calçados. As mudanças ocorridas nos últimos dez anos foram mais profundas do que em qualquer época anterior, mas muito pouca gente se apercebeu do que estava e continua a acontecer.
Estive conversando, outro dia, com um empresário no mezzanino da empresa dele, de onde se descortina a vista do piso da fábrica e apontei para o transportador mecânico, a conhecida “esteira” dizendo – “Temos aqui um exemplo dos métodos obsoletos que prevalecem na nossa indústria. Introduzi a primeira “esteira” em 1961 na Calçados Samello, ou seja, exatamente há cinqüenta anos atrás e, com diferença de algumas máquinas mais modernas, ou de algumas que não usamos mais, como equipamento para confecção do calçado palmilhado, na essência nada mudou! Em cinqüenta anos os nossos métodos continuam os mesmo!”
Já bati nesta tecla numerosas vezes, mas encontro uma descrença, uma teimosia em permanecer com os métodos antigos e obsoletos, ou quem sabe, com falta de coragem de abordar a mudança, tão necessária. Não posso culpar os chefes ou gerentes de produção, que hoje é politicamente correto chamar de “líderes” Nunca tiveram oportunidade de visitar empresas fora do país, empresas com metodologia de trabalho diferente, atualizadas e produtivas. Sem falar que nunca tiveram oportunidade de se instruir profissionalmente, tirando um ou outro curso do SENAI.
Como vamos competir com o resto do mundo com nossos impostos escorchantes, com legislação trabalhista que premia a quem quer distancia do trabalho, com infra-estrutura caindo aos pedaços, com juros campeões do mundo? Não é que não vamos competir, vamos isto sim, ser engolidos pelo tsunami vindo de Oriente.
Como vamos competir com modernas fábricas chinesas que produzem calçados, com a ajuda dos técnicos gaúchos, em três horas? Com a Índia já nos calcanhares da China? Não há como justificar a esta altura, porque o calçado em Franca precisa em média de dez dias úteis para atravessar o processo produtivo. Não existe justificativa. Em Nova Serrana, repito, em Nova Serrana que produz calçado há trinta anos somente, já temos fábrica que produz calçado de ótima qualidade numa hora e vinte minutos.
Fábio Barbosa, atual presidente do Banco Santander proferiu uma frase lapidar: “Quem gosta de mudança é empresa de transportes!” – Deve falar pela experiência, porque o banco dele passou por enormes mudanças. Mas acho que ele não conhece o ambiente da indústria de calçados.
A indústria de calçados está passando pelas profundas mudanças, detectáveis, mas as vezes muito sutis para serem identificadas com facilidade. Acima falei sobre a parte de produção. Outro ponto que merece uma atenção muito grande é a área de comercialização. O mercado que durante anos era do vendedor, muitas vezes fazendo se de rogado para vender ou entregar, passou, irrevogavelmente a ser mercado do comprador.
Explicação é fácil. Basta ver as estatísticas. Nos primeiros seis meses deste ano a importação dos calçados aumentou 40 %. Ao mesmo tempo as exportações do calçado brasileiro despencaram em 32 %. – Mas o mercado nacional ficou do mesmo tamanho! Só que agora cedeu, talvez, uns 15 % ao calçado importado e sofre pressão daqueles que pararam de exportar e querem continuar produzindo, o que representa uns 25 % do mercado disponível. Resultado? Mercado nacional encolheu para o produto nacional em nada menos de 40 %. Ou seja a dificuldade para vender aumentou na mesma proporção.
O pânico que está tomando conta dos clusters produtores está plenamente justificado. Mas qual é a saída? Continuar esperando que o tsunami vai passar? Ou adotar a postura de “este filme já vi muitas vezes” como se ouve frequentemente? Ou esperar que o governo vai sair em defesa da pobre indústria de calçados sobre-taxando as importações e encarecendo o produto para o consumidor final? Vamos observar o que aconteceu no resto do mundo para ver que esta esperança é muito tênue. Deveria ser acompanhada com aumento de número de fiscais de receita, de combate à corrupção – oh, cala-te boca - como dizia nos tempos idos Jô Soares.
Nos Estados Unidos, após os acontecimentos na Praça da Paz em Beijing havia vozes contra a importação do calçado e têxteis chineses. Deu em nada, o bolso dos consumidores falou mais alto. Na Europa as taxas de proteção contra calçado chinês terminaram em 31 de março deste ano e a despeito da grita dos italianos não foram prorrogadas. Faz sentido. Proteger uns milhares de empregos contra o interesse de milhões de consumidores?
Tudo isso o que escrevi acima deveria servir como resposta para as perguntas: Mudar? Para quê? A resposta às duas perguntas é simples: Para sobreviver. Como? Adotar métodos modernos de produção, aplicar criatividade no produto e nos métodos de vendas, preocupar-se com serviço oferecido aos compradores, enfim estar em sintonia com os tempos atuais e tentar se antecipar ao futuro que, posso garantir, não será nada fácil.
Zdenek Pracuch
03/10/11