NÃO MUDOU NADA !

Aproveitei o fim-de-semana para pôr ordem na minha biblioteca (uma das poucas coisas de que me posso orgulhar) e, encontrei um livro, de cuja existência me esqueci completamente. É um livro de 1983 publicado pelo, então, Ministério da Indústria e Comércio sobre Análise dos Setores Industriais (Estrutura, Desempenho, Problemas) e trata da Indústria de Calçados.

Abri o livro e acabei esquecendo minha intenção de pôr ordem nos livros, comecei a folhear, sentindo-me 27 anos mais jovem e, na proporção que passeava pelas páginas, me senti cada vez mais triste, quando comparava a indústria de calçados há trinta anos atrás (a pesquisa foi feita no biênio de 1980-1981), com aquilo que existe hoje.

Não mudou nada! Há trinta anos atrás o comportamento da indústria e dos industriais era o mesmo como o é nos dias de hoje! A globalização, a informática, os métodos de gestão modernos devem ter acontecido numa constelação de Sírius, mas não em nosso planeta, pelo menos não no que diz respeito ao nosso ramo industrial.

A pesquisa foi feita por meio de questionários e as respostas foram tabuladas em percentagens. Vejamos, então especificamente, tanto as perguntas sobre o estágio em que se encontravam as indústrias pesquisadas e as percentagens pertinentes a cada pergunta:

Percentagem de respostas de NÃO EXISTE ou PARCIALMENTE ATUALIZADO OU SEM MÉTODOS MODERNOS foi para a pergunta: - Lay-out ou arranjo físico 74,1 %;
- Manual de fluxos e métodos 87,1 %;
- Controle de compras de matérias primas 49,4 %;
- Controle de qualidade na recepção de matérias primas 82,4 %;
- Controle de entrada/saída de estoques de matérias-primas 83,5 %;
- Controle de qualidade produtos finais 78,8 % e
- Desenvolvimento de novos produtos 54,1 %.

As respostas dos industriais sobre os processos produtivos também não são animadoras:
- Tenho perdas significativas no processo de produção devido à inabilidade dos operários 62,5 %;
- Tenho limitações do espaço físico para aumentar a produção 62,5 %;
- Procuro manter o pessoal técnico para otimizar a produção 100,0 %;
- Tenho alta rotatividade de mão-de-obra na produção 50,0 % e
- Tenho necessidade de uma mão-de-obra na produção mais especializada da que possuo hoje 75,0%.

Esta situação, com variações mínimas, se aplica à situação da maioria das empresas no dia de hoje. As perguntas acima podem ser consideradas como um bé-a-bá da gestão na parte da produção de uma empresa. No entanto, poucas são as empresas que poderiam responder com um SIM retumbante a todas as perguntas formuladas acima. Muito bem, em trinta anos pouco ou nada mudou. Acontece que, há trinta anos atrás, competíamos conosco mesmos e, se todo mundo adotava este sistema primitivo de gestão, não havia grande dano.

Mas hoje competimos em escala global com concorrentes bem estruturados, ávidos de tudo o que é mais atualizado e moderno na indústria, justamente para se adiantar sobre os possíveis concorrentes. – As perguntas respondidas acima se referiam a área de produção. Na área da comercialização a situação não está nada melhor, agravada ainda pela circunstância de a comercialização, o comportamento do mercado e, principalmente dos consumidores mudou dramaticamente com a entrada do terceiro milênio.

Vejamos as respostas dos industriais sobre como analisavam a comercialização dos seus produtos. Novamente, as percentagens correspondem as opiniões no mesmo sentido para as perguntas apresentadas.
- Existe uma forte concorrência de preços nos produtos que vendo 100,0 %;
- A cópia de linhas de produtos dos concorrentes é prática comum 75,0 %;
- A distância entre a minha fábrica e o meu principal mercado encarece bastante o preço de meus produtos 62,5 %;
- A margem de atacadistas e varejistas onera o preço dos produtos vendidos ao consumidor 75,0 %;
- O preço final de meus produtos baixaria, se a forma de comercialização fosse modificada 87,5 %;
- Teria condições de adaptar a minha produção para fabricar produtos populares de boa qualidade 87,5 %;
- Tenho dificuldade em criar linhas de produtos populares de boa qualidade 50,0 % e
- O consumidor brasileiro, no que se refere aos produtos que fabrico, quer ter hábitos similares aos dos consumidores de nações desenvolvidas 87,5 %.

Os dados apresentados têm sua origem no Sul e Sudeste. Os dados coletados no Nordeste e Norte são ainda mais desanimadores. Mas o que, de fato, revelam? Mostram com absoluta clareza que os problemas que existiam e atormentavam a indústria de calçados permanecem os mesmos. Talvez, agravados mais, pela inserção da economia brasileira na economia global. E, como é notório, esta não anda nada bem. O Brasil, infelizmente, não é aquela “ilha de prosperidade” que a propaganda eleitoral nos quer fazer crer. O realismo dos números fala sobre outra realidade.

A conclusão? Aprendemos a fabricar calçado do primeiro mundo, sim, mas a gestão não acompanhou este avanço!

Zdenek Pracuch