OS ORIENTAIS TRABALHAM EM SILÊNCIO
No telefonema costumeiro a noite para casa, minha esposa me diz, com um ar de incredulidade e susto, que viu na vitrine um calçado Picadilly, do tipo que costuma usar e comprar. Entrou, examinou e viu, para o espanto dela, a etiqueta “Made in China”.
Imagine, me disse, Picadilly chinês! Bem, para ela foi novidade, mas para quem é do ramo, há tempos isto já não constitui novidade nenhuma. Poderia ser outra qualquer das grandes marcas brasileiras como Azaléia, por exemplo. O saudoso Nestor de Paula se antecipou para esta evolução antes de falecer e como conseqüência, hoje temos uns 500 brasileiros ensinando chineses trabalhar com o couro.
Além das outras fábricas que já produzem uma parte daquilo o que transferiram das fábricas fechadas no Brasil. O Antonio Brito, numa entrevista memorável ao Estado de São Paulo, há uns dois anos atrás, antevendo o que hoje está acontecendo disse: Não tenho preocupação sobre a indústria de calçados brasileira, estou preocupado com as fábricas brasileiras. Na época Azaléia fechou uma unidade de produção e demitiu 800 operários causando calamidade pública no município gaúcho, onde não há outro meio de subsistência.
Lembrei me deste fato, quando da passagem do Mr. Charles Tang pela Unifran, segundo a reportagem do Comércio da Franca, aconselhou cinicamente aos empresários francanos para transferir a produção para a China, se quiserem manter a competitividade. Não pude assistir a esta palestra, por estar fora de Franca, mas soube que não apareceu ninguém da classe dos empresários ou do sindicato patronal. Pena não ter aparecido ninguém do sindicato dos operários, para perguntar ao senhor Tang, para quem os chineses vão vender os produtos feitos na China, se a conseqüência da ação deles será desemprego em massa?
O Brasil está numa situação muito vulnerável. A economia norte-americana já está saindo da época de industrialização, passando para a época de serviços e de informação. Com grau de educação bem mais elevado, o desemprego na indústria está sendo anulado com a criação dos empregos nas áreas de novas atividades, condizentes com o terceiro milênio o que, aliás, já foi previsto há trinta anos atrás pelos pensadores como Alvim e Heidi Toffler ou Peter Drucker.
Mas, e o Brasil? Nós ainda dependemos, e muito, dos empregos industriais. Por isso a maré amarela que está começando a sufocar as indústrias de mão-de-obra intensiva tais como têxtil e confecções, calçados e móveis deve ser levada muito a sério. Mais ainda com um governo que parece mais preocupado em agradar os companheiros comunistas chineses do que garantir empregos para os brasileiros.
Temos meios de anular, pelo menos em parte esta tendência, mas na acomodação da nossa classe empresarial e dirigente, não encontro sinais de ação que poderiam despertar alguma esperança. Desperdícios, obsolescência, acomodação, falta de investimentos em tecnologias mais atualizadas, melhoria da gestão – tudo isso continua como se estivessemos no melhor dos mundos. E o tempo está se escoando. O que se pode fazer para sacudir essa sonolência? Analisem o que está acontecendo em redor e tirem as suas próprias conclusões! - Gente, o mundo não termina em Batatais ou Rifaina!
Zdenek Pracuch